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terça-feira, 12 de novembro de 2024

AS DUAS EXECUÇÕES DO MARECHAL

Título Original: Cele Doua Executii ale Maresalului
Diretor: Radu Jude
Ano: 2018
País de Origem: Romênia
Duração: 9min
Nota: 8

Sinopse: O filme confronta dois pontos de vista diferentes do assassinato do General Ion Antonescu, líder da Romênia durante a Segunda Guerra Mundial.
 
Comentário: O curta metragem intercala imagens da execução real de Antonescu, que foi filmada, em 1946 com cenas de uma encenação com atores da mesma morte. Radu Jude é talvez o diretor contemporâneo romeno de maior grandeza na minha opinião, não sei se fica muito claro aqui sua intenção de criticar pessoas de seu país que ainda insistem em tentar tornar esse monstro em uma espécie de herói. A figura do Marechal já foi duramente criticada por ele em outros de seus filmes, mais eloquentemente no "Eu não me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros". Um curta que só indico para quem realmente está querendo ir mais a fundo no cinema do diretor.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

NÃO ME TOQUE

Título Original: Touch Me Not
Diretor: Adina Pintilie
Ano: 2018
País de Origem: Alemanha
Duração: 128min
Nota: 7

Sinopse: Juntos, uma cineasta e seus personagens se aventuram em um projeto pessoal de pesquisa sobre intimidade. Na fronteira fluida entre a realidade e a ficção, Não Me Toque segue as viagens emocionais de Laura, Tómas e Christian, oferecendo uma visão profundamente empática das suas vidas.
 
Comentário: Vencedor do Urso de Ouro e de outro prêmio fora da competição principal no Festival de Berlim. Um filme bem diferente, experimental, portanto é normal que muita coisa funcione e outras não para o espectador, mas independente da experiência é um filme muito interessante e corajoso por parte da diretora em realizá-lo. Christian Bayerlein é o grande trunfo do filme, sua história de vida e de luta com todas as dificuldades que enfrenta é uma lição de vida, não há como não se emocionar. Acho que a diretora erra a mão quando cai demais na ficção do Tómas Lemarquis seguindo sua suposta ex-namorada, por exemplo, nos desconectamos da ideia do que a diretora está tentando vender como documentário nestes momentos. Laura Benson fica entre o real e o lírico. Gostei do filme, acho que mereceu o prêmio, mas é muito longo para o que propõe e a diretora deveria participar mais, pois gostei das cenas em que ela participa. Sua narrativa também trás as melhores reflexões do filme, há um momento em que desmontam um equipamento em que o que ela diz vale toda a assistida.

PS: Cadastrei como um filme alemão, pois para mim não faz sentido colocá-lo como um filme romeno por conta da diretora. O filme foi filmado na Alemanha e é todo falado em inglês. Não tem nada que nos faça referência a Romênia.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

MUSEU

Título Original: Museo
Diretor: Alonso Ruizpalacios
Ano: 2018
País de Origem: México
Duração: 126min
Nota: 6

Sinopse: Em 1985, um grupo de criminosos evadiu a segurança do Museu Nacional de Antropologia na Cidade do México para roubar 140 peças pré-hispânicas de suas vitrines.
 
Comentário: Indicado ao Urso de Ouro e vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Berlim. O filme não é ruim, tem seus momentos, mas enrola demais e parece que não chega em lugar nenhum do meio para o final. A história real tem muitos detalhes que foram omitidos e que tornariam o filme muito mais dinâmico e interessante. Me espanta o prêmio de Melhor Roteiro, porque eu só fui perceber que o filme se passava em 1985 depois que fui ler a respeito, há uma cena do natal em que o sobrinho dele ganha um Lego do Star Wars que foi lançado pela primeira vez só em 2000, eu me preocupo tanto com esses detalhes quando vou escrever algo, vejo um roteiro preguiçoso aqui. O final é muito apressado, a relação familiar que poderia ser o mais interessante no desfecho também fica corrida. O elenco principal (Bernal e Ortizgris) funciona e estão muito bem.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

DOVLATOV

Título Original: Dovlatov
Diretor: Aleksei German Jr
Ano: 2018
País de Origem: Rússia
Duração: 126min
Nota: 7

Sinopse: Filme sobre a vida do renomado escritor russo de origem armênia Sergei Dovlatov. As ações do filme se desenrolam em 1971, contando sobre quatro dias na vida do famoso escritor. O filme levanta a questão eterna da cultura russa e europeia - a questão da escolha moral.
 
Comentário: Indicado ao Urso de Ouro e vencedor de um prêmio fora da competição principal no Festival de Berlim. Não conheço a obra de Dovlatov, fato que talvez venha a remediar, mas não posso dizer que nutri muita simpatia pelo personagem título durante a película: mimado, irresponsável e pedante. O filme demora demais para se tornar interessante, porém em sua reta final eu confesso que estava grudado na tela, por isso ganhou pontos na minha nota. É mais interessante pelo cenário em torno que vai sendo construído do que pelo personagem em si. Há diálogos ótimos e situações que despertam uma excelente discussão. No geral é um bom filme, mas é muito de nicho, maioria das pessoas não irão gostar. Não posso terminar sem falar da atuação do Milan Maric, que faz um excelente trabalho como Dovlatov, é ele que segura boa parte das partes que não funcionam tão bem, mantendo o telespectador interessado. A parte técnica é impecável.

sábado, 21 de setembro de 2024

NUNCA DEIXE DE LEMBRAR

Título Original: Werk Ohne Autor
Diretor: Florian Henckel von Donnersmarck
Ano: 2018
País de Origem: Alemanha
Duração: 189min
Nota: 9

Sinopse: Kurt Barnert (Tom Schilling) é um artista alemão que conseguiu escapar da Alemanha Oriental. Agora, ele vive seus dias na Alemanha Ocidental, mas ainda assim é atormentado pelos traumas da sua infância sob o regime dos nazistas e da República Democrata Alemã (RDA).
 
Comentário: Indicado ao Leão de Ouro e vencedor de outros dois prêmios fora da competição principal no Festival de Veneza, foi também indicado a dois Oscars. Primeiramente quero deixar registrado que essa sinopse dada ao filme não faz nenhum sentido, já que ele parte da Alemanha Oriental para a Ocidental já praticamente depois de duas horas de filme. O filme é uma biografia, bem fiel pode-se dizer em relação aos fatos pelo menos, do grande pintor Gerhard Richter, provavelmente todos os nomes foram trocados por não ter sido autorizado pelo mesmo. Para título de curiosidade, o médico se chamava Henry Eufinger e morreu sem ser responsabilizado por nada, Richter só veio a saber da relação de seu ex-sogro (pois se separou da esposa em 1982) com sua tia depois da publicação de um artigo no jornal Tagesspiegel em 2004. Os quadros mesclando fotografias não são exatamente como no filme, mas na mesma coleção havia foto da tia e do sogro em outro quadro. Fui descobrir que se tratava da biografia de Richter depois de duas horas de filme quando aparece o Joseph Beuys (usando o nome de Antonius van Verten), foi então que ligou todos os pontos na minha cabeça, Beuys é disparado meu artista preferido, sou meio obcecado pela obra dele e já escrevi alguns textos sobre seu trabalho e maneira de pensar. O bombardeio de Dresden, mostrado no filme, é considerado talvez o pior bombardeio depois das bombas no Japão durante a Segunda Guerra e foi retratado por Kurt Vonnegut, um sobrevivente, no livro Matadouro Cinco. No geral gostei muito do filme, achei que as horas passaram voando. Richter produziu coisas bem mais interessantes no período posterior ao filme e hoje ainda está vivo com seus 92 anos.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

SHÉHÉRAZADE

Título Original: Shéhérazade
Diretor: Jean-Bernard Marlin
Ano: 2018
País de Origem: França
Duração: 111min
Nota: 8

Sinopse: Zachary, um jovem de 17 anos, acaba de sair da prisão. Rejeitado pela mãe, ele vive pelas ruas em áreas perigosas de Marselha. É nessa situação que ele conhece Shéhérazade.
 
Comentário: Indicado ao Câmera de Ouro no Festival de Cannes. Dá para dizer que o filme abre uma "trilogia" de filmes que retratam o lado escuro da França que ninguém quer mostrar (o segundo filme seria o excelente Os Miseráveis do diretor Ladj Ly de 2019 e o terceiro o mais recente Os Piores dos diretores Lise Akoka & Romane Gueret de 2022). Aqui a narrativa é mais simples e não tão inovadora, quase um clichê mesmo, mas a maneira que o diretor escolheu contar sua história emociona, pela crueza e crueldade. O elenco se entrega ao filme demais. O casal constrói sua história sobre tantos detritos e lixos de suas vidas que é impossível não se entregar ao sentimentalismo ao final. É brutal e doce, vale a pena assistir.

terça-feira, 17 de setembro de 2024

EU NÃO ME IMPORTO SE ENTRARMOS PARA A HISTÓRIA COMO BÁRBAROS

Título Original: Îmi Este Indiferent Daca în Istorie Vom Intra ca Barbari
Diretor: Radu Jude
Ano: 2018
País de Origem: Romênia
Duração: 138min
Nota: 8

Sinopse: Uma artista recebe financiamento para encenar um espetáculo sobre uma batalha de guerra na Romênia e recebe críticas dos produtores por incluir um retrato realista do tratamento dado aos judeus por seu país durante a Segunda Guerra Mundial.
 
Comentário: Achei a narrativa até a metade meio entrecortada demais, não te prende muito, porém quando o filme passa da metade você já está completamente fisgado, se desenvolve melhor quando deixa de focar muito no relacionamento que não leva a lugar nenhum da diretora com o piloto. O espetáculo e a relação com o seu entorno é muito interessante, o comportamento fascista tosco de muitos romenos é nítido quando se convive com eles, e eu convivo com vários no meu local de trabalho. Radu Jude faz um belo filme aqui e já desponta como um dos grandes diretores europeus deste século, não há um filme mais ou menos que eu tenha assistido dele. O elenco também está espetacular, com diálogos afiadíssimos em momentos chaves. No final fica a reflexão e a explicação muito nítida do porque a Europa está como está hoje.

sábado, 7 de setembro de 2024

DURANTE A TORMENTA

Título Original: Durante la Tormenta
Diretor: Oriol Paulo
Ano: 2018
País de Origem: Espanha
Duração: 129min
Nota: 8

Sinopse: Duas tempestades separadas por 25 anos, uma mulher assassinada, uma filha desaparecida, e apenas 72 horas para descobrir a verdade.
 
Comentário: Tem filmes que é preciso se desligar um pouco da realidade e se entregar à narrativa, e Oriol Paulo já provou que é mestre de uma narrativa rocambolesca que funciona muito bem. Confesso que preferi seus filmes anteriores (O Corpo e Um Contratempo), talvez haja nesse filme exageros que extrapolam demais algumas situações, por outro lado, há momentos aqui que são realmente excepcionais. O filme me prendeu muito bem, para um filme pipoca blokbuster coloca os filmes de Hollywood atuais no chinelo, com um elenco e uma direção muito competentes. Achei que a parte final do filme vai se desenrolando rápido demais, principalmente com as histórias paralelas dos atores coadjuvantes, no geral o filme é muito bom, gosto do diretor exatamente porque ele não tem medo de cair no absurdo para contar uma boa história, falta isso nos filmes de hoje em dia.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

FRONTEIRA

Título Original: Gräns
Diretor: Ali Abbasi
Ano: 2018
País de Origem: Suécia
Duração: 105min
Nota: 9

Sinopse: Quando uma guarda de fronteira que consegue farejar o medo para identificar os contrabandistas encontra a primeira pessoa que ela não pode provar a culpa, sua relação a força a confrontar revelações terríveis sobre si mesma e sobre a humanidade.
 
Comentário: Vencedor do prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de Melhor Maquiagem. Escrevo essa resenha depois de um tempo que assisti, e é impressionante como o filme fica martelando na cabeça da gente mesmo depois de dias. Há algo de muito poderoso na narrativa sobre a espécie humana, mais do que sobre os trolls que ganham o protagonismo na película. Algumas pessoas se sentem chocadas com o lance que envolve crianças no filme, mas toda a lenda em torno das criaturas giram em muitas histórias sobre rapto de bebês, então me parece que a narrativa do filme, ao envolver todo o lance em torno de crianças, faz muito sentido para mim. De resto, o filme é um deleite, bizarro e interessantíssimo. Estava com o pé atrás, já que não gostei muito do filme mais recente do diretor (Santa Aranha), mas esse eu achei muito superior. Você começa a pensar sobre a natureza humana, genocídios, conto de fadas, lendas e a mente divaga em diversas direções. Um belo filme.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

EM CHAMAS

Título Original: Beoning
Diretor:  Lee Chang-dong
Ano: 2018
País de Origem: Coréia do Sul
Duração: 148min
Nota: 8

Sinopse: Jong-su encontra uma garota que morava no mesmo bairro que ele. A jovem pede que ele cuide de seu gato enquanto viaja para a África. Quando ela retorna, ela apresenta Ben, um garoto misterioso que ela conheceu por lá.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor dos prêmios de Direção de Arte e da Federação Internacional de Críticos de Cinema no Festival de Cannes. É um filme muito bom, mas que perde a força na sua hora final exatamente por cair no clichê de um roteiro tipicamente comercial hollywoodiano, se ele seguisse da maneira que estava até o momento maravilhoso da dança de Jeon Jong-seo eu teria gostado bem mais. E falando em Jeon Jong-seo, é ela que brilha, atuação espetacular. Não quero dar spoiler, então a única coisa que vou falar sobre a hora final do filme é que, apesar de ter ido por um lado que não gostei, ainda assim o diretor mantém o roteiro previsível com uma narrativa unicamente dentro de suas características, dentro do ritmo do filme, isto faz com que funcione bem pelo menos. Prefiro ao outro filme (Poesia) que assisti do diretor.

domingo, 21 de abril de 2024

CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS

Título Original: Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos
Diretores: Renée Nader Messora & João Salaviza
Ano: 2018
País de Origem: Brasil
Duração: 114min
Nota: 8

Sinopse: Rodado ao longo de nove meses na aldeia Pedra Branca (Terra Indígena Krahô, no Tocantins), sem equipe técnica e em negativo 16mm, o filme acompanha Ihjãc, um jovem Krahô que, após um encontro com o espírito do seu falecido pai, se vê obrigado a realizar sua festa de fim de luto.

 
Comentário: Vencedor do Prêmio do Júri na premiação Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Só pela ideia de se fazer um filme nas condições que foram feitas em uma aldeia indígena já vale a experiência de ser assistido. Interessante ver como o elenco, que não são atores e sim indígenas representando papéis, convencem muito bem dentro da narrativa que está sendo contada. Mas o mais impressionante de tudo são as cenas de interação com a natureza, você fica pensando como o diretor conseguiu filmar isso ou aquilo, como é que aquela arara voou criando aquela cena incrível justo naquele momento? O filme é de encher os olhos, acho que poderia ter alguns artifícios para prender mais a narrativa ao telespectador, não achei um filme fácil de ser assistido em alguns momentos, dispersa de alguma maneira em alguns momentos, mas em linhas gerais é uma grande obra do cinema brasileiro.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

O ENTERRO DE KOJO

Título Original: The Burrial of Kojo
Diretor: Blitz Bazawule
Ano: 2018
País de Origem: Gana
Duração: 80min
Nota: 8

Sinopse: Um homem fica preso em uma mina por seu irmão vingativo enquanto sua filha embarca em uma jornada mágica para resgatá-lo..

Comentário: Um belo filme africano, com uma direção poderosa, imagens lindíssimas e momentos que transforma o filme em uma incrível fábula. Eu confesso que preferi o começo do filme onde eles vivem no vilarejo, o cenário muito mais propício para o desenvolvimento da história, acho que o roteiro podia ter usado algum artifício para não tirar a história dali e levar os personagens para a cidade grande, pois lá o filme perdeu um pouco a força da fantasia. Pode ter sido intencional para retratar a realidade de uma grande cidade do país, mas como narrativa o vilarejo estava funcionando melhor. De resto a história é bem simples, mas a maneira como é contada e se desenvolve só demonstra a competência do diretor estreante. Algumas sinopses do filme que vi por aí estragam completamente algumas surpresas, indico que não leiam sinopses desse filme. Vale a pena, demonstra a força do cinema africano que merece mais destaque.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

FILHAS DO SOL

Título Original: Les Filles du Soleil
Diretor: Eva Husson
Ano: 2018
País de Origem: Curdistão
Duração: 111min
Nota:  10

Sinopse: Bahar é a comandante das Filhas do Sol, um batalhão composto apenas por mulheres curdas que atua ofensivamente na revolução do país. Ela e as suas soldadas estão prestes a entrar na cidade de Gordyene, local onde Bahar foi capturada uma vez no passado. Mathilde é uma jornalista francesa que está acompanhando o batalhão durante o ataque. O encontro entre as duas mulheres, dentro do cenário caótico que as cercam, muda a vida de ambas permanentemente.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme é baseado no contato que a jornalista americana Marie Colvin teve com um grupo de mulheres do YPJ (Unidade de Proteção das Mulheres), um dos braços da revolução marxista apoísta que trouxe liberdade para inúmeras mulheres ao combater o Daesh (ISIS) na região. Achei o filme lindo demais, Golshifteh Farahani dá um show na atuação roubando todo o filme para si. As pessoas que reclamam do 'dramalhão' do filme é porque não tem a menor noção da realidade do que ocorre nessas regiões hoje, digo até que o filme pegou leve. O ISIS é das coisas mais abomináveis da humanidade, até quando iremos fechar os olhos para as atrocidades financiadas inclusive com apoio velado do governo turco de Erdogan? A cena dos créditos finais é de encher o olho de lágrimas. O povo curdo da região de Rojava é uma das poucas coisas hoje que me dão esperança na humanidade. Filmaço!

PS: Cadastrei como um filme do Curdistão, como faço com vários dos filmes aqui. Apesar de ser uma produção francesa, são poucos os diálogos em francês e toda a ação se passa no Curdistão, que é reconhecido como um país aqui no blog.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

LONGA JORNADA NOITE ADENTRO

Título Original: Diqiu Zuihou de Yewan
Diretor: Bi Gan
Ano: 2018
País de Origem: China
Duração: 139min
Nota:  9

Sinopse: Após a morte do pai, Luo Hongwu retorna a Kaili, sua cidade natal de onde havia fugido anos atrás. Ao encontrar uma antiga foto, parte em busca da mulher que nunca conseguiu esquecer e um dia amou. Passado e presente, realidade e sonho se entrelaçam nas lembranças do verão que passou com a mulher que dizia se chamar Wan Quiwen.

Comentário: Indicado na seleção Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Uma bela surpresa, não esperava, achei um belo filme com elementos que remetem ao cinema de David Lynch e Andrei Tarkovsky, mas sem cair em nenhuma espécie de clichê. O filme talvez se estenda demais, mas é interessante como é na reta final que ele vai desabrochando para algo maravilhoso. Adorei tanto a parte técnica como todo o resto, há imagens lindíssimas, mas também um elenco, roteiro e trilha sonora bem envolvente com a trama. O filme vai te levando sem que você perceba para onde e há detalhes a todo momento que servem de pistas para cenas que parecem não dizer muito, mas dizem tudo. Uma grata surpresa foi ter colocado este filme na minha lista obrigatória de 2018.

terça-feira, 16 de maio de 2023

AS HERDEIRAS

Título Original: Las Herederas
Diretor: Marcelo Martinessi
Ano: 2018
País de Origem: Paraguai
Duração: 98min
Nota:  9

Sinopse: Chela e Chiquita são descendentes de famílias ricas de Assunção e estão juntas há mais de 30 anos. Mas, recentemente, sua situação financeira piorou e eles começaram a vender seus bens herdados. Mas quando as suas dívidas levam Chiquita à prisão Chela é forçada a enfrentar uma nova realidade que irá obrigá-la a finalmente começar a sair de sua concha e se envolver com o mundo, embarcando em sua própria revolução íntima e pessoal.

Comentário: Vencedor do Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim e de seis prêmios no Festival de Gramado. O filme é ótimo, a maneira que você pode interpretar a personagem são quase infinitas. O diretor fez um retrato fidedigno de uma protoburguesia, que se não universal, bem comum na América Latina. O trabalho de atuação da Ana Brun é realmente excelente, mas o filme é bem mais que isso, as senhoras para quem ela trabalha lembraram muito minha avó e suas primas, o que deu um tom bem cômico para mim. É interessante como o relacionamento da personagem parece controlador, mas ao mesmo tempo é possível ver por outra ótica também, já que estamos sendo conduzidos por um olhar meio parcial. A solidão é quase um personagem. Algumas pontas soltas fizeram eu não dar nota dez, mas adorei.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

ASAKO I & II

Título Original: Netemo Sametemo
Diretor: Ryûsuke Hamaguchi
Ano: 2018
País de Origem: Japão
Duração: 119min
Nota:  9

Sinopse: Asako tem 21 anos e mora em Osaka. Ela se apaixona por Baku, um rapaz de espírito livre e misterioso. Mas de repente ele desaparece de sua vida. Passados dois anos, Asako agora vive em Tokyo. Ela acaba conhecendo Ryohei, um assalariado que se parece com Baku, mas com uma personalidade completamente diferente dele.

Comentário: Indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Que filmaço! Em uma sociedade egoísta como a que estamos construindo acho muito importante falarmos sobre a responsabilidade que temos com o outro. Já fui tão machucado por pessoas que não tinham responsabilidade afetiva nenhuma comigo e que gostam de postar no Instagram como são iluminadas e maravilhosas. Pessoas criam fantasias em suas cabeças e colocam toda uma vida a perder. Amei o filme, mas o ódio que senti não me deixou dar nota 10. Elenco está ótimo, direção super competente e que roteiro. Pelo menos, por mais que já me tenham feito mal, jamais me dei o direito de repetir o que fizeram comigo com outra pessoa. Esse filme é uma bela lição.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

DOGMAN

Título Original: Dogman
Diretor: Matteo Garrone
Ano: 2018
País de Origem: Itália
Duração: 103min
Nota:  7

Sinopse: Marcello é um homem franzino e tranquilo que trabalha em um modesto petshop na periferia de Roma. Mantém uma ambígua relação de submissão com Simone, um ex-boxeador que aterroriza o bairro inteiro. Mas após mais uma prepotência do violento amigo, Marcello planeja uma terrível vingança. Baseado em uma das páginas das crônicas mais sangrentas do recente passado italiano, Dogman consegue tornar­-se um inquietante retrato sobre a Itália dos dias de hoje, onde não existe a solidariedade e a lei vigente é a do mais forte.
 
Comentário: Indicado ao Palma de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes para Marcello Fonte. Eu confesso que esperava mais, o filme é muito previsível (tão previsível que até o pôster não poupa o telespectador da previsibilidade geral da película) e o personagem principal, mesmo sendo muito bem interpretado, acaba caindo demais em esteriótipos e criando situações pouco críveis. Interessante é ver o prognóstico desta Itália crua e fascista que vem renascendo nas últimas décadas, lembro quando deixei o país em 2007 era um, quando voltei em 2019 era outro completamente diferente. Li que é baseado em uma situação real, mas fiquei curioso em saber até onde o filme trás esta "realidade" do que aconteceu. Fiquei com raiva do personagem em alguns momentos, confesso, principalmente em detalhes ligados a sua filha.

domingo, 5 de março de 2023

EM TRÂNSITO

Título Original: Transit
Diretor: Christian Petzold
Ano: 2018
País de Origem: Alemanha
Duração: 101min
Nota:  10

Sinopse: Quando Georg (Franz Rogowski) tenta fugir da França após a invasão nazista, ele rouba os manuscritos de um autor falecido e assume sua identidade. Preso em Marseille, acaba conhecendo Marie (Paula Beer), que está desesperada para encontrar seu marido desaparecido - o mesmo que ele está fingindo ser. Para complicar ainda mais, ele começa a se apaixonar por ela.
 
Comentário: Indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Christian Petzold vem escalando posições entre meus diretores favoritos de todos os tempos e aqui ele consegue avançar mais algumas posições. Amei! A mistura entre uma história de filme de época filmada em um cenário contemporâneo só reforça o que venho gritando aos sete ventos que a Europa caminha de novo para o fascismo a passos largos. O filme se passa durante a Segunda Guerra tanto como pode se passar em uma Europa mais atual. Portanto a cenografia não importa e o diretor faz questão disso. As relações pessoais com o clima de desastre iminente regional são perfeitas e os atores abraçam a ideia muito bem. Ninguém quer ficar sozinho, ninguém quer ser abandonado, mas é um salve-se quem puder. "Quem esquece primeiro, o abandonado ou quem abandona?", aaaaaah, eu espero que quem abandona sofra bastante, me senti vingado. Obrigado Petzold, tirou um muro de concreto das minhas costas.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

CAFARNAUM

Título Original: Capharnaüm
Diretor: Nadine Labaki
Ano: 2018
País de Origem: Líbano
Duração: 126min
Nota:  8

Sinopse: Aos doze anos, Zain (Zain Al Rafeea) carrega uma série de responsabilidades: é ele quem cuida de seus irmãos no cortiço em que vive junto com os pais, que estão sempre ausentes. Quando sua irmã de onze é forçada a se casar com um homem mais velho, o menino fica extremamente revoltado e decide deixar a família. Ele passa a viver nas ruas junto aos refugiados e outras crianças que, diferentemente dele, não chegaram lá por conta própria.

Comentário: Vencedor do Prêmio do Juri no Festival de Cannes. O que mais espanta do filme é a atuação de Zain Al Rafeea, já que ele não era um ator e sim um refugiado sírio no Líbano vivendo em dificuldade (depois do filme conseguiu asilo na Noruega com a família). O filme começa bem, daí vai se estendendo demais e caindo em um certo pedantismo na tentativa a todo momento de tentar deixar o telespectador aflito, amargurado e revoltado com a situação que vai se tornando exagerada. Porém a película vai encontrando seu caminho e voltando aos trilhos no seu momento final e emociona, consegue passar a mensagem que queria muito bem. A cena final é linda. A direção de Labaki é extremamente competente, mas podia ter encurtado um pouco o filme na sala de edição.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

VIDAS DUPLAS

Título Original: Doubles Vies
Diretor: Olivier Assayas
Ano: 2018
País de Origem: França
Duração: 106min
Nota:  8

Sinopse: Um editor (Guillaume Canet) e um autor (Vincent Macaigne) enfrentam ao mesmo tempo a crise da meia idade, a revolução digital que abala o mercado editorial e imprevistas dificuldades em seus respectivos relacionamentos amorosos.

Comentário: Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. Adorei este filme, provavelmente por fazer parte do meu universo que é a literatura. Por um lado tem dálologos afiados, densos e profundos como um precipício e por outro há outros toscos, vazios e profundos como uma colher de chá. Exatamente como é este mundo, cheio de pseudointelectuais chatos e enfadonhos, mas cheio de gente interessante também. O filme brinca o tempo todo com isso e serve inclusive como discussão da relação do mundo contemporâneo com a literatura. Fiquei meio assustado em perceber que 2018 já é há cinco anos e me fez querer ver o que esses personagens teriam a dizer hoje, no mundo pós pandemia... como anda o mundo deles? Isto que é o legal do filme para quem consegue embarcar. O filme tende a ficar cada vez mais datado, mas é o reflexo daquele momento, como um livro. Assayas é um gênio e o elenco ajuda bastante também.