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quinta-feira, 16 de julho de 2026

CÃES DE CAÇA

Título Original: Les Meutes
Diretor: Kamal Lazraq
Ano: 2023
País de Origem: Marrocos
Duração: 94min
Nota: 7

Sinopse: Pai e filho nos subúrbios de Casablanca sobrevivem com pequenos crimes para uma máfia local. Quando um sequestro dá errado, eles devem encontrar uma maneira de se livrar do corpo.
 
Comentário: Vencedor do Prêmio do Juri na categoria Um Certo Olhar no Festival de Cannes. O filme é bem legal, mas acho que vai perdendo o ritmo para o final, vai deixando de ser um road movie para se tornar uma espécie de filme com ação desnecessária. Mas vale muito a assistida, a relação do pai com o filho e como as coisas vão se desmembrando e chegando a confusão em que se metem é bem interessante de assistir. Sem contar que o clima de Casablanca combina muito com a atmosfera do filme (foi uma das cidades mais estranhas que já estive). Direção competente demais e até certo ponto me lembrou do filme Foi Apenas um Acidente do Panahi, que foi exatamente o filme que eu assisti depois deste.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

ESTRANHA FORMA DE VIDA

Título Original: Extraña Forma de Vida
Diretor: Pedro Almodóvar
Ano: 2023
País de Origem: Espanha
Duração: 31min
Nota: 7

Sinopse: Depois de 25 anos separados, o rancheiro Silva cavalga pelo deserto para visitar seu velho amigo Jake. No entanto, no dia seguinte, a revelação da conexão dos dois homens com um crime local sugere que há mais no encontro deles.
 
Comentário: Indicado ao prêmio de Melhor Curta no Palma Queer no Festival de Cannes. É um bom curta, mas por um lado é meio americanizado demais e por outro é aquela coisa mirabolante demais do Almodóvar. Como já disse em vários textos anteriores, prefiro o diretor quando ele vai para narrativas mais pé no chão. Os atores convencem em vários momentos e não convence em outros. O mais estranho é pensar nisso como um curta espanhol, foi inteiramente filmado na espanha por um diretor espanhol, mas é um bang bang gay americano falado inteiramente em inglês... depois do Faroeste Spaguetti italiano estaríamos frente e um novo gênero: o faroeste paella? Vale a assistida, mas confesso que não me marcou muito na memória.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

SÓ QUANDO EU RIO

Título Original: Samo Kad se Smijem
Diretor: Vanja Juranic
Ano: 2023
País de Origem: Croácia
Duração: 70min
Nota: 8

Sinopse: Tina, uma dona de casa que cuida da filha de 6 anos, mora com o marido Frane em uma cidade do Adriático. As tensões conjugais surgem quando ela expressa o desejo de terminar a faculdade, desafiando os papéis tradicionais de gênero em seu casamento aparentemente perfeito.
 
Comentário: Tihana Lazovic é um furacão, linda, é uma força da natureza quando o assunto é atuação, e não deve ser a primeira vez que eu digo algo assim sobre ela aqui. Já devo ter dito inclusive que ela merecia o prêmio de melhor atriz em Cannes por Sol à Pino, mas o filme concorreu em uma competição paralela no festival daquele ano. O filme é ela, o roteiro é simples e talvez termine cedo demais, porque o filme é bem curto, mas toda a discussão funciona e muito bem, obrigado. A crítica ao patriarcado e a dinâmica tradicional do casamento é enorme e só mostra como vários discursos de liberdade da mulher em países ditos desenvolvidos europeus é pura falácia. Há mais liberdade para mulheres no norte da Síria em Rojava do que em qualquer país do ocidente. Gostaria que tivesse mais tempo, que desenvolvesse mais depois do final, que a protagonista tivesse pelo menos mais voz depois de tudo, mas valeu a espera de conseguir uma cópia, que não foi fácil.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

OLHO DUAS VEZES BOCA

Título Original: Ojo Dos Veces Boca
Diretora: Lila Avilés
Ano: 2023
País de Origem: México
Duração: 23min
Nota: 6

Sinopse: Luz trabalha em uma galeria, mas sua verdadeira paixão é cantar ópera. Enquanto ensaia para uma audição para Madame Butterfly em um dos principais teatros da Cidade do México, seus amigos a ensinam a fazer sua voz e mãos dançarem.
 
Comentário: Um curta que funciona esteticamente bem, mas não tanto no narrativo. Acho que as melhores cenas são as que Luz interage com seu amigo cego, achei que ambos criam uma aura de companheirismo, carinho e até tensão sexual extraordinária. O restante cai bastante no experimentalismo mesmo, com cenas que funcionam e outras que ficam meio perdidas para mim. Porém fiquei curioso em acompanhar mais obras da diretora, mais por conta da maneira sentimental que parece tecer sua obra.

sábado, 17 de maio de 2025

À SOMBRA DO CIPRESTE

Título Original: In the Shadow of the Cypress
Diretores: Hossein Molayemi & Shirin Sohani
Ano: 2023
País de Origem: Irã
Duração: 20min
Nota: 10

Sinopse: Vivendo em uma casa à beira-mar com sua filha, um ex-capitão com transtorno de estresse pós-traumático leva uma vida difícil e isolada.
 
Comentário: Indicado para Melhor Curta Metragem no Festival de Veneza e Vencedor do Oscar de Melhor Curta de Animação. Que coisa mais maravilhosa de assistir, o desenho é lindo demais e a narrativa é maravilhosa. Todo mundo que já passou por alguma situação traumática sabe o quanto é difícil deixar isso para trás e este filme mergulha fundo nisso. Sem diálogos, sem precisar falar uma palavra, ele consegue fazer em vinte minutos o que muito filme não consegue em duas horas. Me emocionei bastante e acho que tenho tentado deixar muitas dores para trás nos últimos anos, e é difícil, portanto um curta desse além de ajudar se torna necessário no mundo de hoje.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

NA ÁGUA

Título Original: Mul-an-e-seo
Diretor: Hong Sang-Soo
Ano: 2023
País de Origem: Coréia do Sul
Duração: 61min
Nota: 7

Sinopse: Um jovem ator decide desistir de atuar e fazer um curta-metragem. A pequena equipe composta pelo próprio ator, o cinegrafista e a protagonista chegam à ilha rochosa e varrida pelo vento de Jeju.
 
Comentário: Indicado para uma premiação paralela no Festival de Berlim. Sang-soo tem filmes que me pegam de algum jeito e outros que simplesmente não funcionam comigo. Este foi estranho, no início simplesmente estava na última categoria, mas ele vai crescendo e no final conseguiu me agradar em vários aspectos. Fez eu pensar em várias coisas sobre a minha própria vida. Não gostei da imagem desfocada usada o tempo todo, não deixa de ser interessante essa ideia do diretor de ir fazendo experimentos com seus filmes de ir tirando de suas películas elementos considerados essências (ao ponto de chegar aqui desfocando até a imagem), mas não achei algo que fosse necessário. Não é um filme para qualquer um, mesmo sendo curtíssimo, diria para passar longe se não conhece o diretor, há filmes dele melhores para se iniciar em sua filmografia.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

ZONA DE EXCLUSÃO

Título Original: Zielona Granica
Diretor: Agnieszka Holland
Ano: 2023
País de Origem: Polônia
Duração: 152min
Nota: 10

Sinopse: Uma família de refugiados da Síria, uma professora de inglês do Afeganistão, um guarda de fronteira e ativistas dos direitos humanos reúnem-se na fronteira entre a Polônia e a Bielorrússia durante a mais recente crise humanitária na região.
 
Comentário: Indicado ao Leão de Ouro e vencedor do Prêmio Especial do Juri e de outros 3 fora da competição principal no Festival de Veneza. Confesso que no início eu estava torcendo o nariz, a diretora apela demais em alguns pontos levando tudo a uma repetição exaustiva, mas passando isso o filme só cresce. Cresce como crítica, cresce como denúncia, cresce como reflexão humana, cresce como crítica ao reino de cristal europeu que a mídia insiste fingir que não ruiu há muito tempo. A diretora foi muito corajosa em enfrentar o governo polonês na realização deste filme, teve que cortar suas raízes com o país e sofreu perseguição. Mas o mais lindo de tudo, a cereja no bolo e o principal fato que eu levantei e aplaudi o filme dando nota 10, foi a capacidade de criticar a postura da Polônia (e porque não de todos os países europeus) na hipocrisia que é o tratamento dado aos imigrantes de um modo geral em relação aos ucranianos que fugiram do conflito. A Europa,  como eu sempre insisto em dizer, é ridícula e hipócrita em seus valores.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

ZONA DE INTERESSE

Título Original: The Zone of Interest
Diretor: Jonathan Glazer
Ano: 2023
País de Origem: Alemanha
Duração: 104min
Nota: 10

Sinopse: O comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, e sua esposa Hedwig, se esforçam para construir a vida dos sonhos para sua família em uma casa com jardim ao lado do campo.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor do Grande Prêmio do Festival e do prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema no Festival de Cannes, também ganhou dois Oscars. O filme é impressionante por ser diferente de tudo que se fez até agora sobre o assunto, sem contar a parte técnica impecável. Você só escuta os ruídos de Auschwitz enquanto contempla a vida de plástico construída do lado de fora. O diretor soube utilizar a sutileza, a crítica ácida e diálogos afiadíssimos misturados com o dia a dia comum em uma experiência sensorial única. Não acho que seja um filme que vá tocar todo mundo, principalmente falando de quem está acostumado com o filme pipoca de Hollywood e de uma geração que tende a falta de empatia hoje em dia, mas para mim foi um dos melhores do ano.

sábado, 17 de agosto de 2024

CRÔNICAS DO IRÃ

Título Original: Ayeh Haye Zamini
Diretores: Ali Asgari & Alireza Khatami
Ano: 2023
País de Origem: Irã
Duração: 77min
Nota: 8

Sinopse: Pessoas comuns, de diferentes classes, enfrentam restrições culturais, religiosas e institucionais impostas por diversas autoridades sociais, como professores e burocratas. Essas vinhetas movimentadas, divertidas e comoventes capturam o espírito e a determinação da população iraniana diante das adversidades.
 
Comentário: Indicado ao prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Ali Asgari é o diretor do ótimo curta Mais Que Duas Horas e Alireza Khatami dirigiu no Chile o excelente Os Versos Esquecidos, então minhas expectativas eram altas. O filme é super simples, com várias situações que satirizam não só o governo, mas a própria sociedade iraniana em determinados momentos. Há algumas muito engraçadas, outras angustiantes. Há situações caricatas e outras extremamente realistas. Para dar um exemplo, minha esposa já passou por uma entrevista de emprego em Teerã parecida com a do filme, escancarando o machismo. Eu ri demais do cara querendo colocar o nome do filho de Davi e fiquei nervoso demais na entrevista de emprego do cara que finge se lavar. No geral é um filme muito bom, onde trás situações estereotipadas em alguns momentos que parece querer agradar o ocidente com uma visão deturpada do Irã (já que existe motos que funcionam como táxi na cidade e minha esposa vive pegando, então não entendi aquele lance da menina chegar de moto na escola ser um problema), ao mesmo tempo que trás situações iguais as que já passamos como a multa do carro por causa do hijab.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

O ÚLTIMO PUB

Título Original: The Old Oak
Diretor: Ken Loach
Ano: 2023
País de Origem: Inglaterra
Duração: 113min
Nota: 10

Sinopse: O dono de um pub luta para manter seu negócio vivo em uma cidade decadente. Quando refugiados sírios começam a ocupar as casas vazias da região, a tensão aumenta e a união dos habitantes locais é colocada à prova.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes e vencedor do Prêmio da Audiência no Festival de Locarno. Eu fui assistir com um pé atrás, sempre adorei o Loach, mas seu último filme (Você Não Estava Aqui) eu tinha achado bem ruim. Me surpreendi muito positivamente, um dos melhores filmes do ano na minha opinião. Moro em uma pequena cidade na Inglaterra e a caracterização dos ingleses está perfeita (conheci pessoas maravilhosas e horríveis por aqui), o filme trás o que a humanidade tem de melhor e o que tem de pior. Mas é a figura do imigrante que é crucial para o debate, recentemente as coisas tem esquentado por aqui, com manifestações de grupos contra imigrantes, patético, pois sem o trabalho deles a Inglaterra literalmente para. O tom agridoce e a própria dinâmica da história é tocante, confesso que chorei. Mas nada do filme funcionaria como funciona sem o ator Dave Turner, é ele a alma do filme, o bombeiro que se aposentou em 2014 jamais havia atuado, conheceu Loach e acabou fazendo duas pontas em seus filmes anteriores antes de ganhar o papel principal aqui... perfeita interpretação, ouso dizer que é uma das melhores interpretações do ano também. O filme merece muito ser visto. Ótimo fechamento de carreira para o diretor que anunciou sua aposentadoria depois deste filme e que trás enormes reflexões sobre o futuro, esperança e a sociedade em que estamos construindo.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

O SABOR DA VIDA

Título Original: La Passion de Dodin Bouffant
Diretor: Anh Hung Tran
Ano: 2023
País de Origem: França
Duração: 135min
Nota: 9

Sinopse: 1885. A cozinheira Eugenie trabalha para o gourmet Dodin há 20 anos. Com o passar do tempo, a admiração mútua gerou um relacionamento amoroso. Eugenie, no entanto, nunca quis se casar com Dodin. Ele decide, então, cozinhar para ela.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes. Realmente a direção de Ahn Hung Tran é maravilhosa, as cenas na cozinha são deslumbrantes. Sou vegetariano e achei as críticas de uma galera sem cabimento nenhum por conta das carnes no filme. Cozinhar é uma das minhas paixões, achei este filme a maior carta de amor a isto. Binoche e Magimel são um mero detalhe, é tomo aquele tempero que dá o toque especial no prato, que faz a harmonização, que combina com o bom vinho. Um filme muito bom, que pode não trazer uma história que seja excepcional, mas que funciona como o assado que o personagem pensou em servir para o príncipe, assim como funciona o nosso feijão com arroz para quem é brasileiro. Indico fácil.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

A GRANDE CARRUAGEM

Título Original: Le Grand Chariot
Diretor: Philippe Garrel
Ano: 2023
País de Origem: França
Duração: 97min
Nota: 6

Sinopse: Três irmãos, um pai e uma avó administram um negócio na forma de um show de marionetes itinerante. Quando o pai morre, os membros restantes da família tentam manter seu legado vivo.

Comentário: Indicado ao Urso de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim. Confesso que eu esperava mais, Muita coisa no filme funciona muito bem para mim quando foca nas relações familiares dos personagens, na metalinguagem com a própria vida do diretor e seus filhos que estão em cena, porém, é quando dá ao personagem do pintor um certo protagonismo que ele parece se perder na mensagem que quer dar. Não que o personagem não seja interessante até certo ponto, me deu asco ao ver o que faz com a mulher grávida (tão comum no meio masculino), mas é um personagem que parece completamente perdido em meio ao filme. Daí fica um sentimento que todo o núcleo familiar foi subaproveitado. É um filme acima da média, mas que podia ser muito melhor.

terça-feira, 25 de junho de 2024

EU, CAPITÃO

Título Original: Io Capitano
Diretor: Matteo Garrone
Ano: 2023
País de Origem: Senegal
Duração: 221min
Nota: 8

Sinopse: Conta a história de dois jovens que saem do Senegal rumo à Europa; uma odisséia contemporânea pelos perigos do deserto, os perigos do mar e as ambiguidades da alma humana.

Comentário: Indicado ao Leão de Ouro e vencedor dos prêmios de Melhor Direção e Ator Revelação para Seydou Sarr no Festival de Veneza. Quando o filme terminou vem aquele sentimento bom que todo filme hollywoodiano usa como forma de te enganar, então fui inundado pelo mesmo sentimento da crítica de várias pessoas de que o filme falha miseravelmente quando mostra a chegada na Europa como uma salvação. Porém, depois de um tempo pensando tive uma outra visão do filme. Eu moro na Europa, vivo e trabalho com muitos africanos que fizeram este caminho do deserto para o mar. Acompanho de muito perto também o sentimento fascista anti-imigrante que só cresce. Acredito que é um filme feito por um europeu para outros europeus, pois qualquer um que mora aqui sabe que a Europa não é uma salvação, portanto o filme serve para que as pessoas criem empatia, entendam o lado do outro como seres humanos. Nisso acho que o filme faz um bom trabalho. O mais louco é ver vários africanos que trabalham comigo, se ferrando muito, mas gastam com roupas de marca para postar fotos no Instagram para a família pensar que eles estão bem, mesmo muitos me relatando que gostariam de voltar para a África, e assim se cria esse mito de que a Europa é muito boa, pois nem os africanos que estão aqui vão dizer o contrário para não preocupar suas famílias. Lógico que há também africanos que estão muito melhor aqui que lá. O ator é realmente incrível, mas o que mais me chamou a atenção foi a trilha sonora composta por Andrea Farri, fazia tempo que eu não via uma trilha tão poderosa. No geral, pensando nessa nova interpretação que me veio, é um filme muito bom.

*Cadastrei o filme no Senegal, porque ao meu ver não se trata em nada sobre a Itália. Ele é falado em Wolof e de italiano só tem o dinheiro da produção e a equipe técnica mesmo.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

MÚSICA

Título Original: Musik
Diretora: Angela Schanelec
Ano: 2023
País de Origem: Alemanha
Duração: 109min
Nota: 7

Sinopse: Abandonado quando bebê, Jon se vê na prisão sob a acusação de homicídio culposo. Ele se apaixona pela guarda da prisão, Iro, sem saber de sua fatídica conexão.

Comentário: Indicado ao Urso de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Berlim. Me falaram que a diretora não era fácil, mas para mim o filme estava indo muito bem até a meia hora final, quando se desloca para a Alemanha de fato. Adorei o ritmo, os silêncios apesar do título, a delicadeza de Iro e a fotografia. Fiquei vidrado e não senti nenhum sono apesar de assistir de madrugada. Interessante como a diretora utiliza do catártico jogo de futebol (Alemanha e Itália na semifinal da Copa do Mundo de 2006) para demarcar toda a cronologia do personagem, a partir daí é possível entender que o assassinato do começo do filme se passa em 1999 e a cena final provavelmente uns 30 anos depois. São detalhes. Me perdi em vários momentos, mas me remeteu a um texto do Ademir Luiz que colo um trecho aqui: "A grande arte não precisa fazer ninguém se sentir “cabeça” por estar diante dela. Muitas vezes ocorre o contrário: sentimo-nos estúpidos por não conseguirmos alcançar o pensamento ou as intenções de um grande artista. Quando isso ocorre, a culpa é sempre nossa, jamais do artista, se ele já passou pelo crivo do tempo e da história. O recomendável é tentarmos de novo, mas se desistimos quem perde mais somos nós, não a Arte". Portanto, que venham mais filmes de Angela Schanelec.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

NO INTERIOR DO CASULO AMARELO

Título Original: Bên Trong vỏ Kén Vàng
Diretor: Thien An Pham
Ano: 2023
País de Origem: Vietnã
Duração: 178min
Nota: 7

Sinopse: Depois que uma mulher morre em um acidente de trânsito em Saigon, seu cunhado e seu filho transportam o corpo de volta para a sua cidade natal, na zona rural do Vietnã, onde planejam realizar um funeral.

Comentário: Vencedor da Câmera de Ouro no Festival de Cannes. Difícil escrever sobre este filme, é um filme que você tem que sentir mais do que entender. Cheio de percepções e uma excelente fotografia. A relação do personagem principal com o sobrinho foi o que mais me cativou, acho que o ritmo cai um pouco mais para o final. O começo é meio estranho e não entendi muito bem, já que os amigos estavam no local do acidente, comentam sobre o mesmo até fazendo de que nada aconteceu com a criança, mas depois ele é notificado sobre o acidente enquanto faz massagem (o tio não reconheceu o próprio sobrinho no local?). É um bom filme que merece ser contemplado por quem curte este tipo de filme meio road movie, meio contemplativo, meio que não vai para lugar nenhum e cheio de significados escondidos.

sábado, 4 de maio de 2024

A QUIMERA

Título Original: La Chimera
Diretora: Alice Rohrwacher
Ano: 2023
País de Origem: Itália
Duração: 131min
Nota: 9

Sinopse: Arthur é um jovem arqueólogo que se envolve com um grupo de ladrões de túmulos repletos de relíquias da era etrusca, que se dedicam à venda desses objetos ao mercado negro. Para este grupo, Quimera é o desejo pelo dinheiro fácil, já para Arthur se parece com a mulher que ele perdeu, Beniamina. Para encontrá-la, ele desafia o invisível e procura por toda parte em busca de um caminho mitológico para a vida após a morte.

 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Alice Rohrwacher entrega aqui, talvez, seu melhor filme (preciso rever o As Maravilhas de novo, pois faz muito tempo que vi, e amei demais também). A densidade e camadas que o filme tem são mais do que pude contar. Fala-se sobre o sagrado, sobre o passado, como também se fala do profano e do presente, mas também vislumbramos sobre a esperança que é o futuro também. Os atores estão ótimos, Carol Duarte simplesmente rouba a cena em todo momento que aparece, se já estava encantado depois do "A Vida Invisível", agora estou apaixonado. O final é espetacular, diz tanto sobre quem somos, sobre o que sentimos. Difícil me expressar em palavras sobre este filme, é uma experiência que vai te atingir dependendo da sua vivência, das experiências que teve na vida. Arrebatador!

quarta-feira, 1 de maio de 2024

ERVAS SECAS

Título Original: Kuru Otlar Üstüne
Diretor: Nuri Bilge Ceylan
Ano: 2023
País de Origem: Turquia
Duração: 197min
Nota: 10

Sinopse: Um professor espera ser transferido para Istambul após quatro anos de serviço obrigatório em um vilarejo remoto, mas é acusado de contato inadequado por duas alunas. Após perder a esperança, uma colega lhe apresenta novas perspectivas.

 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor de Melhor Atriz no Festival de Cannes para Merve Dizdar que está muito bem no filme e tem os olhos exatamente iguais da minha companheira. É um filme maravilhoso, com várias camadas sobre a sociedade de um modo geral. Samet é mesquinho, egoísta, mas não é de todo sem coração: representa o produto padronizado da sociedade capitalista que o produziu. Kenan tem um coração mais puro e Nuray tenta se descobrir depois do trauma que passou. É complicado quando se tenta comparar o trabalho do diretor com o Sono de Inverno, que acho que talvez seja o melhor filme deste século, mas se deixarmos de lado as comparações o filme merece uma nota máxima. O final é lindo, faz a gente pensar em várias experiências de nossas próprias vidas, os erros e os acertos também. É o tipo de filme que eu gosto, fotografia linda, o pé na realidade e conceitos que colocam o seu cérebro para pensar em vários níveis diferentes sobre coisas diversas. Ece Bagci, que faz a aluna Sevim, também merece aplausos.

terça-feira, 30 de abril de 2024

O MAL NÃO EXISTE

Título Original: Aku Wa Sonzai Shinai
Diretor: Ryûsuke Hamaguchi
Ano: 2023
País de Origem: Japão
Duração: 106min
Nota: 9

Sinopse: Takumi e sua filha vivem em um vilarejo perto de Tóquio. Um dia, os habitantes da vila descobrem um plano para construir um acampamento perto da casa de Takumi que oferece aos moradores da cidade uma confortável "fuga" para a natureza.
 
Comentário: Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e mais outros 3 prêmios fora da competição principal. Que baita filme, o início do filme contemplativo já me ganhou na hora, o resto vai fluindo muito bem. Não entendo quem diz que nada acontece no filme, discordo completamente, há tanta coisa, tantas camadas de discussões. Vemos uma sociedade pós pandêmica e isto está bem incrustado no filme, fala sobre capitalismo, sobre a importância da vida em comunidade e tantas outras coisas. O final é muito "What Tha Fuck!" e confesso que fazia muito muito tempo que um filme não me tirava da zona de conforto assim. Dos filmes que assisti do diretor, o mais badalado Dirija Meu Carro, achei o mais fraco. Parte técnica do filme é impecável, mas ainda prefiro o Roda do Destino.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

FOLHAS DE OUTONO

Título Original: Kuolleet Lehdet
Diretor: Aki Kaurismäki
Ano: 2023
País de Origem: Finlândia
Duração: 81min
Nota: 8

Sinopse: Em Helsinque, Ansa e Holappa, duas almas solitárias em busca do primeiro amor, conhecem-se por acaso em um bar de karaokê. Porém, o caminho dos dois para a felicidade é cercado por vários obstáculos: de números de telefone perdidos a endereços errados, alcoolismo e uma charmosa cachorrinha de rua.

 
Comentário: Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes. "Festa estranha com gente esquisita, eu não tô legal, não aguento mais birita" como já cantavam o Legião Urbana... e bota gente estranha nisso. Não sou familiarizado com o cinema do Kaurismäki, este é o primeiro que assisto apesar de ter outros 10 na minha coleção. Apesar de estranho e de ter uma história para lá de clichê, o filme agrada, conquista a gente pela excentricidade dos personagens. Os cenários são lindos, tem todo um toque nostálgico misturado com o mundo moderno atual. Irritou um pouco o lance de ficar batendo na tecla sobre a Guerra da Ucrânia (mas é a Europa e a visão eurocentrista prevalece por aqui sempre), mas serviu para mostrar como ela afetou o fornecimento de energia para os países que embarcaram na conversa fiada estadunidense. No geral o filme é uma graça com um toque agridoce.

sábado, 13 de abril de 2024

DIAS PERFEITOS

Título Original: Perfect Days
Diretor: Wim Wenders
Ano: 2023
País de Origem: Japão
Duração: 124min
Nota: 8

Sinopse: Hirayama está feliz em sua vida simples como limpador de banheiros em Tóquio. Tirando sua rotina diária muito estruturada, ele cultiva sua paixão pela música, livros e fotografias de árvores. Uma série de encontros inesperados revela gradualmente mais do seu passado.

 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes. Talvez seja um exagero dizer que seja tão bom quanto os trabalhos épicos do diretor, mas é inegável que Wenders volta aqui a ter uma relevância muito interessante para o cinema. É um filme mais sensorial do que narrativo, mas a cena final é sublime demais e me remeteu As Noites de Cabíria de Fellini. Interessante notar também como há vários pontos em que Wenders revisita sua própria obra, desde a musicalidade (The Kinks, Van Morrison ou Lou Reed), passando por uma espécie de road movie por Tóquio para chegar até a complexidade do personagem que permanece submerso como um iceberg em sua totalidade. Koji Yakusho dá um show de talento e carisma. No começo do filme cheguei até a pensar que o personagem era um anjo que abdicou de sua vida angelical como em Asas do Desejo.