segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O AGENTE SECRETO

Título: O Agente Secreto
Diretora: Kleber Mendonça Filho
Ano: 2025
País de Origem: Brasil
Duração: 161min
Nota: 8

Sinopse: Em 1977, um especialista em tecnologia foge de um passado misterioso e retorna à sua cidade natal, Recife, em busca de paz. Ele logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procurava.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor dos prêmios de Melhor Ator, Melhor Diretor, da Associação Francesa dos Cinemas de Arte e Ensaio e da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica no Festival de Cannes. O filme é muito bom, a direção do Kleber é sempre um ponto a mais e as atuações de modo geral um espetáculo. A narrativa começa muito bem, mas acho que se estende demais e chega em um desfecho apressado e desnecessário, mas não vou dar spoilers. Acho que o filme podia ter um pouco mais da vibe de "Aquarius", principalmente no desfecho, as ideias de brincar com a narrativa como no caso da Perna Cabeluda deram dinâmica e é deixada de lado para abraçar um antíclimax que pareceu diminuir tudo o que estava sendo construído.

domingo, 2 de agosto de 2026

VOCÊ ME ESCONDE!

Título: You Hide Me!
Diretora: Kwate Nee-Owoo
Ano: 1970
País de Origem: Gana
Duração: 17min
Nota: 8

Sinopse: Enterrado no porão do Museu Britânico, escondido em sacos e caixas, está uma grande variedade de artefatos africanos antigos e raros. Um dia, os objetos valiosos são revelados pela primeira vez, revelando a vasta extensão da arte africana roubada.
 
Comentário: Mais de 50 anos antes de Mati Diop ganhar o seu Urso de Ouro no Festival de Berlim com o seu Dahomey, o diretor ganense Kwate Nee-Owoo já abordava neste curta metragem o mesmo assunto de uma maneira simples e direta. Tenho certeza que este curta foi uma forte influência para a diretora em seu filme de 2024. Uma crítica sempre necessária ao colonialismo europeu como um todo e todo o saque que perpretaram aos tesouros africanos, afetando a própria identidade de todo um povo. O diretor é cirurgico e vai direto ao ponto, mesmo porque não tem muito tempo para estender demais a discussão. Muito bom e mereçe a assistida.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

ATLÂNTICOS

Título Atlantiques
Diretora: Mati Diop
Ano: 2009
País de Origem: Senegal
Duração: 16min
Nota: 6

Sinopse: Atlantiques narra a odisséia de amigos senegaleses que tentam uma travessia de barco com risco de vida. Melancólico e misterioso, o filme aborda com urgência e elegância os perigos da migração ilegal.
 
Comentário: O curta metragem é visívelmente uma semente para o que viria a ser o longa metragem Atlantique da diretora, pois não é só o mesmo nome que ambos compartilham, também falam do problema da emigração e como isso afeta tanto as pessoas que decidem abandonar tudo em busca de uma vida melhor como suas famílias. Digo uma semente, porque pelo menos para mim, há uma diferença bastante considerável entre os dois também, este é bem mais cru, praticamente um documentário sem toda a ideia do sobrenatural que é usado, inclusive como crítica, no longa. A cena em que amigos discutem a ideia de ir embora e um deles diz que não deixaria ele ir é forte, trabalhei com vários africanos na Europa e suas histórias sempre me impressionaram, eu jamais teria a coragem (ou a loucura) de enfrentar o que vários enfrentaram. Um curta necessário, mas que achei muito entrecortado, sem uma narrativa que me prendesse. 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

FRUTOS DO CACTO

Título Original: Sabar Bonda
Diretor: Rohan Kanawade
Ano: 2025
País de Origem: Índia
Duração: 112min
Nota: 7

Sinopse: Anand, um morador da cidade com cerca de 30 anos, é obrigado a passar um período de luto de 10 dias pela morte do pai no interior do oeste da Índia. Lá, ele estabelece um afetuoso vínculo com um agricultor local que luta para permanecer solteiro. Quando o luto termina, forçando seu retorno, Anand precisa decidir o destino de um relacionamento que nasceu sob pressão.
 
Comentário: Vencedor do Festival de Sundance na categoria de Cinema Mundial. Um drama gay na Índia que começa bem interessante, cai bastante conforme o filme avança e melhora bastante no final. É um filme que trás mais do mesmo dentro do tema, mas que talvez tenha alguma força por ser feito em um país onde ser gay ainda seja um tabu muito grande. O elenco e a direção estão ótimos como um todo, a realidade de um pequeno povoado da Índia cativa o espectador. Vivi cinco anos da minha vida entre amigos indianos e sinto falta demais desse jeito deles, há uma simplicidade e inocência de levar a vida que eu acho muito bonito. Um bom filme no geral, gostei bastante do desfecho.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

MIROIRS Nº. 3

Título Original: Miroirs Nº. 3
Diretor: Christian Petzold
Ano: 2025
País de Origem: Alemanha
Duração: 86min
Nota: 8

Sinopse: A vida de uma jovem estudante de música sofre uma reviravolta inesperada quando seu namorado morre tragicamente em um acidente de carro, forçando-a a reformular seu caminho.
 
Comentário: Indicado ao Prêmio do Público no Festival de Cannes. Filme que encerra a Trilogia dos Elementos, o primeiro Undine com o elemento água, o segundo Céu Vermelho com o elemento fogo e este com o elemento ar. O título remete a uma peça chamada "Um Barco no Oceano" do compositor Maurice Ravel e a passagem dela que dá nome ao filme se conecta a mensagem de luto e ao fluxo da vida que o diretor quer passar. Dos três, achei este o mais fraco, mas ainda assim é muito bom como qualquer coisa que eu já tenha assistido do diretor é. Paula Beer e Barbara Auer estão ótimas e fazem a química do filme funcionar, mas não posso deixar de comentar o carisma do ator Matthias Brandt em todas as cenas que aparece. Há elementos que são recorrentes na obra de Petzold, como a questão de Doppelgängers, personagens que são como reflexos de outros, o que faz que o "espelhos" da música de Ravel e do título faça todo o sentido. Petzold é um dos meus diretores contemporâneos favoritos, acho que merece muito ser assistido e interpretado, pois sua arte é poderosa.

terça-feira, 28 de julho de 2026

COMO FOTOGRAFAR UM FANTASMA

Título Original: How to Shoot a Ghost
Diretor: Charlie Kaufman
Ano: 2025
País de Origem: Grécia
Duração: 27min
Nota: 10

Sinopse: Dois jovens recém-mortos se encontram nas ruas de Atenas, em meio à paisagem urbana pulsante e aos fantasmas da história. Um tradutor, o outro fotógrafo, eles eram estranhos na vida; na morte, eles lutam com o resíduo de seus anseios e erros. Eles vagam pela cidade juntos, encontrando consolo na difícil beleza da existência e suas consequências.
 
Comentário: Curta metragem que teve sua estreia no Festival de Veneza, último trabalho do conceituado diretor Charlie Kaufman. Acho justo cadastrá-lo como um filme grego, já que a cidade de Atenas acaba sendo um terceiro personagem além do casal protagonista. A poesia junto com a estética fotográfica do curta funciona bem demais, é bonito de ver, denso e cheio de significados. O ator libanês, Josef Akiki, e a atriz irlandesa, Jessie Buckley, se mesclam com a cidade e conseguem dar o tom para que a ideia por trás da história funcione da maneira que tem que funcionar. O diretor nos entrega mais do que uma película e sim uma experiência sensorial e poética tudo ao mesmo tempo e misturado. Amei!

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A GUERRA DOS MUNDOS: PRÓXIMO SÉCULO

Título Original: Wojna Swiatów: Nastepne Stulecie
Diretor: Piotr Szulkin
Ano: 1981
País de Origem: Polônia
Duração: 96min
Nota: 9

Sinopse: Polônia, época de Natal. Um grupo de marcianos hiperinteligentes e sanguinários toma o país e recruta o azarado apresentador de telejornal Iron Idem para ser a voz de sua máquina de propaganda. Mas, quando Iron ousa desviar da linha oficial, ele cria um inimigo ainda maior do que os alienígenas: o próprio Estado.
 
Comentário: Terceiro filme que assisto do diretor e é simplesmente impressionante a estética fotográfica que seus filmes têm. A fotografia estava muito à frente de seu tempo, em nenhum momento parece um filme datado no sentido estético. As narrativas de seus filmes também são elaborados demais, poéticas e audaciosas. Aqui vemos uma releitura do livro de H.G. Wells, mas ao mesmo tempo diferente de tudo o que já fizeram a respeito dele, com um ambiente que parece mesclar com o livro 1984 de Orwell. Krystyna Janda sempre merece uma menção em qualquer comentário de um filme em que faça parte, sempre deslumbrante. Piotr Szulkin merecia ter seu nome lembrado ao lado de grandes nomes da história do cinema, extremamente subestimado.

domingo, 26 de julho de 2026

O SUL

Título Original: El Sur
Diretor: Victor Erice
Ano: 1983
País de Origem: Espanha
Duração: 95min
Nota: 9

Sinopse: Uma mulher reflete sobre sua relação de infância com seu pai, tentando compreender a profundidade de seu desespero e a verdade de seus mitos.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Terceiro filme que assisto do diretor, este assisti na sequência do O Espírito da Colméia, e a qualidade se mantém intacta. Um filme com muito mais coisas nas entrelinhas, sobre cicatrizes que a vida não cura e ficam não resolvidas até o fim da vida. Se você não tem algo do tipo pode se considerar uma pessoa de sorte... ou talvez não. A complexidade da vida tratada com maestria por um dos melhores diretores que descobri nos últimos anos. O filme era para ter o dobro de tempo, mas foi encerrado por falta de orçamento para finalizá-lo pela produção. Erice conseguiu nos entregar um desfecho válido, mas fica aquela vontade de ver o que o diretor planejava para o restante da película, o que o sul traria para o filme. Um diretor que consegue transpor para a tela a vida da forma mais crua de uma maneira poética.

sábado, 18 de julho de 2026

O ESPÍRITO DA COLMÉIA

Título Original: El Espíritu de la Colmena
Diretor: Victor Erice
Ano: 1973
País de Origem: Espanha
Duração: 98min
Nota: 9

Sinopse: Em 1940, após assistir e ser traumatizada pelo filme de Frankenstein, uma sensível menina de sete anos, que mora em uma pequena aldeia espanhola, entra em seu próprio mundo de fantasia.
 
Comentário: Depois de assistir ao seu último filme arrebatador, Fechar os Olhos, já estava querendo me aprodundar mais no cinema de Victor Erice. Este filme foi outra grata surpresa, é excelente também, com várias camadas sobre cada personagem a serem exploradas a cada assistida. Ana Torrent, que interpreta Ana, nos presenteia com um dos trabalhos mais memoráveis de astros mirins. A narrativa demorou para me fisgar, parece que demora para mostrar para o que veio, mas consegue brincar com nossa cabeça e sentimentos como o outro filme que assisti do diretor. Há um diálogo entre fantasia e realidade que remete a própria dinâmica do cinema. A fotografia é linda e a condução meticulosa de Erice vale muito a pena. Uma pena que ele não lance filmes com intervalos menores de tempo.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

FOI APENAS UM ACIDENTE

Título Original: Yek Tasadof-e Sadeh
Diretor: Jafar Panahi
Ano: 2025
País de Origem: Irã
Duração: 103min
Nota: 10

Sinopse: Um mecânico humilde é assombrado pelo tempo em que foi torturado em uma prisão iraniana quando encontra um homem que suspeita ser o seu sádico carcereiro.
 
Comentário: Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme é excelente, mas não parece um filme do Panahi, o que tira um pouco a expectativa que eu tinha no filme, lembra mais o cinema de um Rasoulof ou Farhadi. O personagem Hamid, interpretado por Mohamad Ali Elyasmehr rouba todas as cenas em que aparece e faz todo o sentido para mim. Tem coisas para mim que pareciam tão simples de resolver, mas é preciso ser iraniano para entender como os personagens tomam suas decisões. Assisti ao lado da minha esposa e sogra, ambas iranianas, e tive que dizer para elas que os persas são um povo civilizado demais. O final é o que faz o filme ter a força que tem, foi perfeito e dá a mensagem que precisa ser dada, é preciso por toda a civilidade de lado as vezes.