quarta-feira, 18 de setembro de 2024

ESTADOS UNIDOS PELO AMOR

Título Original: Zjednoczone Stany Milosci
Diretor: Tomasz Wasilewski
Ano: 2016
País de Origem: Polônia
Duração: 101min
Nota: 7

Sinopse: Polônia, 1990. O primeiro ano eufórico de liberdade, mas também de incerteza quanto ao futuro. Quatro mulheres aparentemente felizes, de diferentes idades, decidem que é hora de mudar suas vidas e realizar seus desejos.
 
Comentário: Indicado ao Urso de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Berlim. Um filme pesadíssimo sobre quatro mulheres, mas que diz muito também sobre o comportamento masculino repleto de condicionamentos do patriarcado. As histórias são contadas separadas, como se o filme fosse feito por diferentes curtas, mas que se conectam em determinados pontos. Amores platônicos, traições, sociopatias, comportamento abusivo, estupro de incapaz... o filme tem de tudo um pouco. A falta de conexões reais entre os personagens diz muito sobre o mundo hoje também, que tem se tornado cada vez mais artificial nessa Sociedade-Instagram. A paleta de cores desse filme é fantástica, diretor conseguiu passar o clima frio entre os personagens na fotografia também. Um bom filme, mas que tem que estar meio que preparado, porque não é tão fácil de digerir.

terça-feira, 17 de setembro de 2024

EU NÃO ME IMPORTO SE ENTRARMOS PARA A HISTÓRIA COMO BÁRBAROS

Título Original: Îmi Este Indiferent Daca în Istorie Vom Intra ca Barbari
Diretor: Radu Jude
Ano: 2018
País de Origem: Romênia
Duração: 138min
Nota: 8

Sinopse: Uma artista recebe financiamento para encenar um espetáculo sobre uma batalha de guerra na Romênia e recebe críticas dos produtores por incluir um retrato realista do tratamento dado aos judeus por seu país durante a Segunda Guerra Mundial.
 
Comentário: Achei a narrativa até a metade meio entrecortada demais, não te prende muito, porém quando o filme passa da metade você já está completamente fisgado, se desenvolve melhor quando deixa de focar muito no relacionamento que não leva a lugar nenhum da diretora com o piloto. O espetáculo e a relação com o seu entorno é muito interessante, o comportamento fascista tosco de muitos romenos é nítido quando se convive com eles, e eu convivo com vários no meu local de trabalho. Radu Jude faz um belo filme aqui e já desponta como um dos grandes diretores europeus deste século, não há um filme mais ou menos que eu tenha assistido dele. O elenco também está espetacular, com diálogos afiadíssimos em momentos chaves. No final fica a reflexão e a explicação muito nítida do porque a Europa está como está hoje.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

A LIBERDADE É AZUL

Título Original: Trois Couleurs: Bleu
Diretor: Krzysztof Kieslowski
Ano: 1993
País de Origem: França
Duração: 98min
Nota: 10

Sinopse: Julie é a esposa de um renomado maestro e compositor francês que morre em um desastre automobilístico com a filha do casal. A mulher, única sobrevivente da tragédia, vê-se na situação de ter que lidar com essas perdas e seguir sua vida.
 
Comentário: Vencedor do Leão de Ouro e de mais outros quatro prêmios no Festival de Veneza. Para mim, um dos filmes definitivos sobre o luto, Binoche está mais linda do que nunca e perfeita, a direção do Kieslowski também é maravilhosa. Me choquei ao perceber que já fazia mais de 15 anos que havia assistido, rever o filme depois de tudo o que passei até aqui foi mais catártico do que eu poderia imaginar. Tentar ir em frente depois de enterrar tanta gente é difícil, mas é o que resta como única opção. Da primeira vez que vi, lembro que não havia gostado da decisão de Olivier no final do filme, mas hoje entendo como ela é importante como mensagem. Filmes se modificam conforme nossas experiências de vida e eu acho isso maravilhoso. Trilha sonora icônica!

sábado, 7 de setembro de 2024

DURANTE A TORMENTA

Título Original: Durante la Tormenta
Diretor: Oriol Paulo
Ano: 2018
País de Origem: Espanha
Duração: 129min
Nota: 8

Sinopse: Duas tempestades separadas por 25 anos, uma mulher assassinada, uma filha desaparecida, e apenas 72 horas para descobrir a verdade.
 
Comentário: Tem filmes que é preciso se desligar um pouco da realidade e se entregar à narrativa, e Oriol Paulo já provou que é mestre de uma narrativa rocambolesca que funciona muito bem. Confesso que preferi seus filmes anteriores (O Corpo e Um Contratempo), talvez haja nesse filme exageros que extrapolam demais algumas situações, por outro lado, há momentos aqui que são realmente excepcionais. O filme me prendeu muito bem, para um filme pipoca blokbuster coloca os filmes de Hollywood atuais no chinelo, com um elenco e uma direção muito competentes. Achei que a parte final do filme vai se desenrolando rápido demais, principalmente com as histórias paralelas dos atores coadjuvantes, no geral o filme é muito bom, gosto do diretor exatamente porque ele não tem medo de cair no absurdo para contar uma boa história, falta isso nos filmes de hoje em dia.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

SACRO GRA

Título Original: Saro Gra
Diretor: Gianfranco Rosi
Ano: 2013
País de Origem: Itália
Duração: 91min
Nota: 3

Sinopse: Ao longo de quase dois anos explorando os quase 70 km de rodovias circulares do “Grande Anel Rodoviário”, Gianfranco Rosi traz à tona o cotidiano do cidadão comum, compondo o perfil de um microcosmo nos arredores da Grande Roma.
 
Comentário: Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o que é completamente incompreensível para mim. Dos grandes festivais, Veneza é o que deu o prêmio máximo para vários filmes que considero muito abaixo da média, mas nenhum que eu tenha desgostado tanto quanto esse. Eu juro que tentei, mas mesmo tendo assistido inteiro, o filme não criou absolutamente nenhuma conexão comigo, não me disse absolutamente nada, coisas completamente desconexas e vazias foi o que assisti ao longe de uma hora e meia. Sim, a parte técnica e as imagens são lindas em vários momentos, e mesmo tendo algumas cenas que salvam (o pescador de enguia e o cara que escuta os besouros), são ínfimas dentro do todo. O cara que tem conexões de trabalho com a Lituânia foi das coisas mais bizarras do filme, dá até vergonha. Achei que seriam personagens com ligações com o Grande Anel Rodoviário, mas nem isso, não há conexão, coesão ou uma mensagem. Daqueles filmes pseudo-cults feitos para inflar egos da área cinematográfica ou sei lá. Muito ruim. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

LESTE

Título Original: Ostwärts
Diretor: Christian Petzold
Ano: 1991
País de Origem: Alemanha
Duração: 23min
Nota: 6

Sinopse: Pouco depois da reunificação alemã, três residentes de uma zona tranquila a norte de Berlim falam sobre os seus planos e tentativas de novos começos econômicos no meio das mudanças trazidas pela queda do Muro de Berlim.
 
Comentário: Único documentário de Petzold, que estava no começo da carreira, e mostra a visão da unificação da Alemanha pela visão de pessoas que estavam no lado da RDA. A primeira personagem a aparecer, a maquiadora facial, é a que trás mais peso ao curta, suas divagações e suas percepções e análises a respeito das duas Alemanhas faz a gente ter uma visão completamente diferente daquela vendida pelo lado propagandista pelo mundo ocidental. O segundo personagem não trás nada de muito interessante para a discussão, porém o terceiro faz uma ponte com o passado e liga com o medo e a esperança que há no futuro, fiquei pensando no que será que aconteceu com seu negócio. É interessantíssimo do ponto de vista histórico e antropológico. O impacto que toda a obra do diretor terá com assuntos que são trazidos aqui também fazem deste curta ter uma importância relevante em sua cinebiografia.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

FRONTEIRA

Título Original: Gräns
Diretor: Ali Abbasi
Ano: 2018
País de Origem: Suécia
Duração: 105min
Nota: 9

Sinopse: Quando uma guarda de fronteira que consegue farejar o medo para identificar os contrabandistas encontra a primeira pessoa que ela não pode provar a culpa, sua relação a força a confrontar revelações terríveis sobre si mesma e sobre a humanidade.
 
Comentário: Vencedor do prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de Melhor Maquiagem. Escrevo essa resenha depois de um tempo que assisti, e é impressionante como o filme fica martelando na cabeça da gente mesmo depois de dias. Há algo de muito poderoso na narrativa sobre a espécie humana, mais do que sobre os trolls que ganham o protagonismo na película. Algumas pessoas se sentem chocadas com o lance que envolve crianças no filme, mas toda a lenda em torno das criaturas giram em muitas histórias sobre rapto de bebês, então me parece que a narrativa do filme, ao envolver todo o lance em torno de crianças, faz muito sentido para mim. De resto, o filme é um deleite, bizarro e interessantíssimo. Estava com o pé atrás, já que não gostei muito do filme mais recente do diretor (Santa Aranha), mas esse eu achei muito superior. Você começa a pensar sobre a natureza humana, genocídios, conto de fadas, lendas e a mente divaga em diversas direções. Um belo filme.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

OS ALUNOS DO PRIMEIRO ANO

Título Original: Avaliha
Diretor: Abbas Kiarostami
Ano: 1984
País de Origem: Irã
Duração: 79min
Nota: 6

Sinopse: Uma câmera escondida segue um grupo de alunos da primeira série durante o dia na escola. Enquanto alguns alunos cantam no recreio, outros são chamados ao gabinete do superintendente – onde o supervisor lida com os retardatários e os desordeiros entrevistando os rapazes inocentes e oferecendo conselhos sábios.
 
Comentário: Um documentário que tenta mostrar a importância do convívio social que divide a fase da infância em que a criança está acostumada a conviver mais com a família para a fase em que terá que enfrentar o convívio com a sociedade. A figura do superintendente é o núcleo e o que faz o filme funcionar, mas algumas crianças em especial conseguem roubar a cena e nosso coração, o garotinho preocupado com o colega que vai perder a aula é o mais fofo de todos. Kiarostami dentro do universo que foi sua obsessão em começo de carreira, a infância, este filme é o último que realizou antes de sua grande obra sobre o assunto: Onde Fica a Casa do Meu Amigo?. Talvez se alongue demais e torne algumas tomadas cansativas, mas no geral é acima da média.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

ESCOLA DE MULHERES

Título Original: Hustruskolan
Diretor: Ingmar Bergman
Ano: 1983
País de Origem: Suécia
Duração: 108min
Nota: 8

Sinopse: A última produção de Alf Sjöberg para o Royal Dramatic Theatre de Estocolmo foi transferida para a TV por Ingmar Bergman. Escola de Mulheres é sobre o velho solteiro Arnolphe que decidiu se casar com a jovem Agnes, mas encontra um rival inesperado em Horace, que tem a mesma idade que ela.
 
Comentário: Primeiro trabalho de Bergman depois de anunciar a aposentadoria do cinema para se dedicar mais ao teatro e a escrever roteiros, aqui temos uma adaptação da peça de Molière filmada especialmente para a televisão sueca. Adoro um Bergman mais leve, seus filmes que caem mais para a comédia são tão brilhantes quanto os filmes mais sérios, e sempre um deleite enquanto assistimos. Achei super divertido, me prendeu na tela do começo ao fim. Allan Edwall é um ator incrível e domina todo momento que está em cena. O elenco de apoio também funciona muito bem, achei muito bom, e muito superestimado também. O assunto era atual nos anos oitenta como, infelizmente, continua atual mais de quarenta anos depois. Uma crítica ferrenha ao patriarcado e TODAS as suas raízes na sociedade.

sábado, 17 de agosto de 2024

CRÔNICAS DO IRÃ

Título Original: Ayeh Haye Zamini
Diretores: Ali Asgari & Alireza Khatami
Ano: 2023
País de Origem: Irã
Duração: 77min
Nota: 8

Sinopse: Pessoas comuns, de diferentes classes, enfrentam restrições culturais, religiosas e institucionais impostas por diversas autoridades sociais, como professores e burocratas. Essas vinhetas movimentadas, divertidas e comoventes capturam o espírito e a determinação da população iraniana diante das adversidades.
 
Comentário: Indicado ao prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Ali Asgari é o diretor do ótimo curta Mais Que Duas Horas e Alireza Khatami dirigiu no Chile o excelente Os Versos Esquecidos, então minhas expectativas eram altas. O filme é super simples, com várias situações que satirizam não só o governo, mas a própria sociedade iraniana em determinados momentos. Há algumas muito engraçadas, outras angustiantes. Há situações caricatas e outras extremamente realistas. Para dar um exemplo, minha esposa já passou por uma entrevista de emprego em Teerã parecida com a do filme, escancarando o machismo. Eu ri demais do cara querendo colocar o nome do filho de Davi e fiquei nervoso demais na entrevista de emprego do cara que finge se lavar. No geral é um filme muito bom, onde trás situações estereotipadas em alguns momentos que parece querer agradar o ocidente com uma visão deturpada do Irã (já que existe motos que funcionam como táxi na cidade e minha esposa vive pegando, então não entendi aquele lance da menina chegar de moto na escola ser um problema), ao mesmo tempo que trás situações iguais as que já passamos como a multa do carro por causa do hijab.