sexta-feira, 16 de setembro de 2022

DECISÃO DE PARTIR

Título Original: Heojil Kyolshim
Diretor: Park Chan-wook
Ano: 2022
País de Origem: Coréia do Sul
Duração: 138min
Nota:  10

Sinopse: Um detetive (Park Hye-il) se apaixona por uma misteriosa viúva (Tang Wei) após ela se tornar a principal suspeita em seu último caso que investiga um homicídio.

Comentário: Indicado ao Palma de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes. É o tipo de filme que ou te pega ou não, e me pegou em cheio. Fiquei maravilhado! Daqueles que mesmo que você ame não indica para ninguém, porque é cheio de particularidades que você sabe que não caem no gosto de todo mundo. A direção é incrível, achei a condução muito boa, mesmo que fique estranha as vezes, com cortes nada convencionais. Há detalhes que se conectam de maneira imperceptíveis a outros. "Você não deixa de amar alguém porque ela casou" ou "Apesar de eu ter sofrido bastante por tua causa, minha vida não foi vazia graças a ti" são frases que me marcaram na alma, que fazem do filme ter essa força devastadora que me atinge. O elenco está perfeito, o final é catártico. Os detalhes fazem o filme. A minha nota 10 talvez seja exagerada, mas é porque me arrebatou mesmo, acho que no fundo sou exatamente como o detetive que não consegue dormir e tenta esquecer alguém.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O CORRETOR

Título Original: Beurokeo
Diretor: Hirokazu Koreeda
Ano: 2022
País de Origem: Coréia do Sul
Duração: 129min
Nota:  8

Sinopse: Uma caixa de bebê é um pequeno espaço onde os pais podem deixar seus bebês anonimamente. E é em torno desta caixa que o relacionamento das pessoas será explorado.

Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Ator para Song Kang-ho no Festival de Cannes. Achei que o diretor tentou beber demais na própria fonte de seu filme Assunto de Família, criando uma nova família disfuncional, mas daí fica difícil assistir sem estabelecer comparações, e Assunto de Família é um filme imbatível em quase todos os aspectos. Achei que o filme se estende demais e tem um corte de edição meio esquisito as vezes, fica confuso, a gente não sabe exatamente o que o diretor quer passar. Um final apressado demais pelo todo desenrolar do filme, mas apesar das reclamações o saldo é bem positivo. Há momentos lindos, os atores se entregam, há química em todo o conjunto. Koreeda é foda, e isso por si só já segura muito bem o filme. Baita direção. Fui assistir ao filme achando que era japonês e me surpreendi em ver o diretor fazendo um filme sul coreano.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

ME LEVE PARA UM LUGAR LEGAL

Título Original: Take Me Somewhere Nice
Diretor: Ena Sendijarevic
Ano: 2019
País de Origem: Bósnia e Herzegovina
Duração: 91min
Nota:  7

Sinopse: No começo da vida adulta, Alma (Sara Luna Zoric) deixa a casa da mãe na Holanda e viaja para sua terra natal, a Bósnia, para encontrar o pai que nunca conheceu. Mas desde o início, nada corre como planejado. Seu primo Emir (Ernad Prnjavorac) não é receptivo e zomba da vida fácil da jovem na Holanda. Ao mesmo tempo, uma forte atração sexual leva a jovem a se relacionar com o melhor amigo de Emir, o problemático Denis (Lazar Dragojevic). À medida que os obstáculos aumentam, Alma segue determinada a achar o pai. Ela só precisará conhecer a si mesma antes.
 
Comentário: O filme é pseudocult? É! Tem inúmeras incongruências narrativas? Têm! Mas dizer que o filme é vazio e chato acho exagero. A estética é linda, mas é óbvio que foi feito pensando em um público acostumado a filmes mais americanizados de festival (Não a toa o título original é em inglês ou a fita cassete no carro de um cara que mora isolado em uma área rural da Bósnia vai ter Sonic Youth gravado). Mas é um filme bem interessante do ponto de vista sobre a imigração, já que se trata de um país dentro da Europa, portanto de europeus, que vivem à parte por não serem integrantes do bloco econômico da União Europeia. Alma provavelmente tem uma vida de merda na Holanda, sem identidade, uma europeia imigrante dentro da Europa, conheço vários assim por aqui (vivo no Reino Unido). O diálogo onde o motorista diz "O que a Holanda fez por nós?" e continuam com várias perguntas apontando outros países é sensacional, demonstra bem esses países abandonados a própria sorte no mesmo continente. Há inúmeras cenas como essa em conta gotas durante toda a película. Um filme sobre a identidade, acho que tem muito mais força para quem vive como imigrante. O final é interessante, pois remete a um diálogo no filme (não quero dar spoiler), mas deixa um pouco a desejar. Achei acima da média de um modo geral e apreciei bastante.

domingo, 28 de agosto de 2022

A PASTORA E AS SETE CANÇÕES

Título Original: Laila Aur Satt Geet
Diretor: Pushpendra Singh
Ano: 2020
País de Origem: Índia
Duração: 98min
Nota:  8

Sinopse: Com o conflito na Caxemira como pano de fundo, o longa conta a história da pastora nômade Laila. Embora ela se torne a esposa de Tanvir, a jovem atrai a atenção de toda a tribo, especialmente do policial Mushtaq, que está determinado a conquistá-la. Em meio à deslumbrante paisagem do Himalaia, onde a polícia e os militares monitoram rigorosamente cada movimento em todas as fronteiras, os dois trocam réplicas amorosas que fogem do controle. Inspirado na poesia de Lalleshwari, místico da Caxemira do século XIV.

Comentário: Selecionado no Festival de Berlim em uma das premiações paralelas, este filme me surpreendeu muito positivamente, principalmente pelos seus alívios cômicos. Esses filmes indianos tendem, muitas vezes, a cair no dramalhão. As imagens são lindas e a direção nos pega de surpresa por se tratar de um estreante. O final me tirou o fôlego e me espantou bastante pela ousadia, sem medo de seguir caminhos diferentes (experimentais talvez?). Achei que o filme é de uma sensibilidade com a figura feminina que muitas vezes é ignorada por culturas predominantemente machista. A divisão do filme entre as "sete canções" ajuda muito no ritmo em que a história é contada e vamos aos poucos pegando uma simpatia pelo personagem Mushtaq, muito bem interpretado por Shahnawaz Bhat. Cheguei até a pensar que os atores eram de vilarejos da Caxemira utilizados pelo diretor, mas  vi que são atores mesmo com outros trabalhos anteriores. Navjot Randhawa, que interpreta Laila, tem talento de sobra, espero que ganhe mais papéis de destaque no futuro, pois merece.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

OS MISERÁVEIS

Título Original: Les Misérables
Diretor: Ladj Ly
Ano: 2019
País de Origem: França
Duração: 104min
Nota:  9

Sinopse: Stéphane (Damien Bonnard) é um jovem que acaba de se mudar para Montfermeil e se junta ao esquadrão anti-crime da comuna. Colocado no mesmo time de Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djibril Zonga), dois homens de métodos pouco convencionais, ele logo se vê envolvido na tensão entre as diferentes gangues do local.
 
Comentário: Vencedor do Prêmio do Juri no Festival de Cannes, dividindo-o com Bacurau. O filme parece não trazer nada de novo até certo ponto, até dar uma guinada completa nos eventos que levam ao incrível desfecho simplesmente arrebatador. O tanto de discussões que ele escancara com um murro direto na cara do espectador são incontáveis, o próprio policial novato que somos levados de maneira muito bem conduzida a nos identificar, não passa de um passador de pano em linhas gerais. O problema da imigração para a Europa é tratada aqui da maneira crua como é, pois de quem é a culpa da pobreza na África se não dos próprios europeus? Quem melhor para pagar esta conta agora? Sem tirar o mérito do filme brasileiro com o qual dividiu o prêmio, achei este mais direto ao ponto, mais visceral e bem construído, mas o mais interessante é como os dois filmes dialogam muito bem entre si, fazendo deles quase irmãos separados por diferentes continentes. Vale muito a assistida... e que final! QUE FINAL!

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

A MÃO DE DEUS

Título Original: È Stata La Mano di Dio
Diretor: Paolo Sorrentino
Ano: 2021
País de Origem: Itália
Duração: 130min
Nota:  10

Sinopse: Ambientada na tumultuada Nápoles da década de 1980, “A Mão de Deus” é uma narrativa repleta de alegrias inesperadas, como a chegada da lenda do futebol Diego Maradona. Mas também não faltam tragédias. O destino faz a sua parte, misturando alegrias e tristezas, e o futuro de Fabietto está em jogo. Sorrentino volta à cidade onde nasceu para contar uma história muito pessoal sobre destino, família, esportes, cinema, amores e perdas.

Comentário: Vencedor do Leão de Prata no Festival em Veneza. Achei o filme maravilhoso, porque é exatamente o tipo de filme que eu gosto, cheio de sentimentos, que vão do luto à alegria e que desemboca em uma lição de vida sem ser piegas. A coragem do diretor em contar sua história com esta crueza de detalhes foi realmente algo brilhante. Para mim, tudo no filme funcionou, não há nada que eu consiga criticar, inclusive daria o Leão de Ouro fácil para ele. Gosto de filmes sobre crescimento, onde não há necessariamente a fórmula pronta da jornada do herói de Joseph Campbell, onde o personagem é algo completamente diferente no final do filme do que ele era no começo, mas mostrado da maneira como a vida age, sem rodeios. É uma fábula realista. Lindo!

domingo, 31 de julho de 2022

LITTLE JOE

Título Original: Little Joe
Diretor: Jessica Hausner
Ano: 2019
País de Origem: Inglaterra
Duração: 105min
Nota:  7

Sinopse: Uma planta geneticamente modificada espalha suas sementes e parece causar mudanças incomuns nas criaturas vivas. Os aflitos parecem estranhos, como se fossem substituídos - especialmente para aqueles que estão próximos a eles. Ou é tudo apenas imaginação?
 
Comentário: Filme indicado a Palma de Ouro e que deu o prêmio de melhor atriz para Emily Beecham no Festival de Cannes. Não tem como assistir e não comparar com o Invasores de Corpos, e quando comparamos não tem como não enxergar que o filme está abaixo, mas isso não tira os méritos do mesmo. Há conveniências demais no roteiro, mas é interessante a estética e algumas discussões que aborda. se fossemos feliz deixaríamos de ser quem somos? O filme peca em ficar em cima do muro quando não deveria e de descer do muro quando deveria ficar lá em cima. Acho que podiam ter deixado mais aberto o lance do "será que tudo isso é real ou ela está ficando louca?", mas acho também que o filme devia ter decidido mais se queria ser um drama ou suspense. Falando assim, parece que o filme tem mais defeitos que acertos, mas também não é bem assim. Quanto ao prêmio de melhor atriz em Cannes, eu ainda acho que Noémie Merlant merecia mais naquele ano. A mensagem que fica é: muita coisa se resolveria melhor na vida com um coquetel molotov.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

GATO AMARELO

Título Original: Sary Mysyq
Diretor: Adilkhan Yerzhanov
Ano: 2020
País de Origem: Cazaquistão
Duração: 89min
Nota:  8

Sinopse: O ex-condenado Kermek e sua amada Eva querem deixar para trás suas vidas criminosas nos estepes do Cazaquistão. Ele tem um sonho: construir um cinema nas montanhas. O amor de Kermek por Alain Delon será forte o suficiente para mantê-los longe das garras violentas da máfia?

Comentário: Indicado para uma das premiações dentro do festival de Veneza, este filme conseguiu me cativar, talvez porque me remeteu em vários momentos ao filme Amor à Queima Roupa de Tony Scott. Há inúmeras referências, inclusive a trilha sonora composta por Ivan Sintsov e Alim Zairov serve como memória afetiva para quem cresceu vendo o filme americano, como eu. Mas engana-se quem achar que é um plágio simplesmente, o filme serve tanto como paródia como denúncia para a realidade no Cazaquistão, e vai se desenrolando com uma crueza e uma fábula que parece até dirigida por Terry Gilliam. Não vou dar spoiler, mas após ponderar dias sobre o desfecho, acho que foi bem satisfatório para a mensagem que o diretor queria passar. Talvez se o personagem principal não fosse tão lesado o filme renderia diálogos mais interessantes, mas as imagens compensam, e muito, esse deficit.

terça-feira, 26 de julho de 2022

EXPERIÊNCIA

Título Original: Tadjrebeh
Diretor: Abbas Kiarostami
Ano: 1973
País de Origem: Irã
Duração: 53min
Nota:  8

Sinopse: Mamad, um orfão de 14 anos, trabalha e dorme numa loja de fotografias, onde tem um patrão austero. Ele se apaixona por uma estudante mais velha de uma família de classe média, quando a vê na porta de casa.

Comentário: Alguns consideram este o primeiro filme de Kiarostami, porém é um média metragem segundo a classificação de outros países que consideram O Viajante. O fato é que Experiência trás vários elementos que estariam presentes neste período de formação do cineasta, que já havíamos visto em seus dois curtas anteriores (O Pão e o Beco / O Recreio) e que veríamos de novo como por exemplo no filme "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", a infância e a visão do diretor sobre ela. Acho que este é o filme mais sombrio e triste nesse aspecto, nosso coração é partido em vários momentos e a realidade crua como nos é jogada incomoda de maneira proposital. Abbas Kiarostami era mestre, aqui não é diferente, Experiência não chega a ser algo essencial em sua filmografia, mas serve como peça inicial para aqueles que querem ampliar seu entendimento sobre o diretor.

domingo, 24 de julho de 2022

SOBRE A ETERNIDADE

Título Original: Om Det Oändliga
Diretor: Roy Andersson
Ano: 2019
País de Origem: Suécia
Duração: 76min
Nota:  9

Sinopse: Uma reflexão sobre a vida em toda sua beleza e crueldade, seu esplendor e banalidade. Entre um caleidoscópio da condição humana, o filme mistura o presente com o passado e nos conduz por diferentes histórias por meio de uma narração.
 
Comentário: Vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza. Acho que por estar mais acostumado ao estilo do diretor, pude aproveitar muito mais este filme do que o seu anterior (Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre A Existência) que me pegou de surpresa. Adorei, consegui sentir diferentes sentimentos e reflexões ao longo do filme, que mantém a estética asséptica e extraordinária do diretor, como quadros em movimento que vamos assistindo em uma galeria de arte. Lógico que no meio de um turbilhão de histórias, vamos nos identificando mais com umas do que com outras, mas a genialidade do diretor vai até na duração do filme, que deixa o espectador com um gostinho de queria mais ao invés de adentrar em um clima cansativo. Teve momentos que ri muito, outros fiquei abalado, outros são lindos demais.