terça-feira, 22 de outubro de 2019

VIÚVA DO SILÊNCIO

Título Original: Widow of Silence
Diretor: Praveen Morchhale
Ano: 2018
País de Origem: Índia
Duração: 85min
Nota:  7

Sinopse: Na Caxemira em conflito, uma viúva muçulmana, responsável por sua filha de 11 anos e uma sogra doente, encontra-se em apuros. Incapaz de obter o atestado de óbito de seu marido desaparecido do governo, ela deve encontrar forças para superar essa situação absurda.

Comentário: O filme é lento e arrastado em alguns momentos, mas ao mesmo tempo contemplativo e cheio de detalhes que a competente direção de Morchhale segura muito bem. O filme mostra a dualidade entre a podridão do ser humano, onde um funcionário do governo se torna um monstro escancarando o quanto a humanidade é um projeto que deu errado, mas ao mesmo tempo temos a figura da enfermeira que abdica de seus ganhos pessoais para tentar dar algum conforto em um momento de desespero a colega, mostrando que talvez eu esteja errado sobre a humanidade. As imagens da Caxemira são como pinturas que me lembraram um pouco o estilo do diretor turco de Nuri Bilge Ceylan. O personagem do motorista, interpretado por Bilal Ahmad, é de longe a melhor coisa do filme. No final tudo fica um pouco kafkaniano e o desfecho é exatamente o que eu esperava, mas que se fosse de outro modo estragava o filme. Só indico para quem realmente está acostumado com este tipo de filme.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

UMA COLÔNIA

Título Original: Une Colonie
Diretora: Geneviève Dulude-De Celles
Ano: 2018
País de Origem: Canadá
Duração: 102min
Nota:  10

Sinopse: Mylia é uma garota de 12 anos que atravessa a zona cinzenta e incômoda da adolescência, constantemente se sentindo inadequada em relação aos colegas da escola. Ela encontra dificuldades no processo de construir sua própria identidade, até que conhece Jimmy, um jovem audacioso que mora em uma reserva vizinha e a encoraja a sair de sua zona de conforto em direção a experiências extraordinárias.

Comentário: Filme vencedor do Urso de Cristal no Festival de Berlin de 2019 e que me tocou profundamente. A diretora é minimalista e já havia ganho dois prêmios pelo seu curta metragem O Corte no Festival de Sundance em 2014. A película é de encher os olhos e fez eu voltar no tempo na minha época de adolescência, mas diferente de todas as minhas outras visitas a este meu passado remoto, desta vez não foi tão ruim. Assim como Mylia, eu nunca me encaixei, assim como ela, eu participava de festas para assistir aos outros se divertirem enquanto eu me perguntava o que diabos eu estava fazendo ali. As metáforas utilizadas para o filme são simplesmente espetaculares, o desfecho é brilhante e fez com que pela primeira vez na minha vida eu agradecesse por ser quem eu sou. O filme teve um enorme impacto em mim, ao sair da sala ouvi uma senhora dizendo que o filme glamorizava a adolescência (coitada!), não entendeu ao filme, porque ele faz exatamente o oposto. Ao longo da minha vida, vi pessoas tão "esquisitas" como eu cair no padrão do mundo comum, se entregar a massa, tentar se encaixar... eu continuo sendo o esquisito e depois desse filme eu agradeço cada segundo da minha história até aqui. Obrigado à diretora, vou continuar pintando fora das linhas.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

PARASITA

Título Original: Gisaengchung
Diretor: Joon-ho Bong
Ano: 2019
País de Origem: Coréia do Sul
Duração: 132min
Nota:  10

Sinopse: Toda a família de Ki-taek está desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota de uma família rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha bolam um plano para se infiltrarem também na família burguesa, um a um. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos.

Comentário: Grande ganhador da Palma de Ouro do ano de 2019, o filme é excelente. O que impressiona é a leveza com que ele consegue passar de uma quase comédia na sua primeira hora para um suspense que me fez roer as unhas de nervoso para o seu final, mas servindo para criticar de maneira sublime os problemas gerados pela diferença de classe no mundo capitalista globalizado. O filme nos induz a torcer para os vilões? Será que os vilões não são os outros? Ou será que não existem vilões e são todos vítimas de suas classes sociais de uma sociedade falida? A direção e o roteira são sintonizados em uma cadência de eventos que fazem com que o telespectador fique extremamente imerso no filme. A cereja no bolo é o diálogo do pai com o filho onde ele divaga sobre "fazer planos" e como tudo isso se conecta o final, que para meio entendedor, é desesperador.

sábado, 21 de setembro de 2019

ROTA IRLANDESA

Título Original: Route Irish
Diretor: Ken Loach
Ano: 2010
País de Origem: Inglaterra
Duração: 108min
Nota:  8

Sinopse: Após se aposentar das forças especiais do Reino Unido em 2004, Fergus vai trabalhar em uma firma de segurança privada no Iraque, uma das atividades mais lucrativas do mundo. Ele convence seu amigo de infância Frankie, ex paraquedista, a entrar com ele no negócio. De volta à sua cidade, Liverpool, recebe a notícia de que Frankie morreu na Rota Irlandesa, estrada iraquiana considerada a mais perigosa do mundo. Ao lado da mulher do amigo, Rachel, Fergus investiga o ocorrido, descobrindo verdades que desafiam a memória dos dias felizes que passaram juntos.

Comentário: Mais um dos filmes denúncias do Loach, onde podemos entender como funciona grandes companhias que lucram com guerras e países destruídos com ela. Onde a ganância vale muito mais do que vidas humanas e os poderosos são quase sempre homens intocáveis por leis e sistemas políticos corruptos. O filme não tem nada haver com a Irlanda, já que a Rota Irlandesa do título é uma estrada no Iraque. Os atores estão muito convincentes e Loach demonstra de uma maneira muito competente seu estilo de cinema contra-sistema. Alguns momentos o filme parece arrastado, com uma carga psicológica altíssima, mas o que realmente não gostei foi do desfecho simplista que o roteiro escolhe seguir para alguns personagens. Com um final um pouco mais elaborado o filme ficava perfeito.

domingo, 8 de setembro de 2019

CÓPIA FIEL

Título Original: Copie Conforme
Diretor: Abbas Kiarostami
Ano: 2010
País de Origem: França
Duração: 106min
Nota:  9

Sinopse: Essa é a história do encontro entre um homem e uma mulher, em um pequeno vilarejo ao sudoeste de Toscana. O homem, um escritor britânico que acabara de dar uma palestra em uma conferência. A mulher, francesa, dona de uma galeria de arte. Essa é uma história comum. Poderia acontecer com qualquer um. Em qualquer lugar.

Comentário: Filme que deu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes para Juliette Binoche, e que interpretação de tirar o fôlego. O filme é uma espécie de Antes do Por do Sol amadurecido, onde a carga filosófica brinca com a maneira que vemos o filme: o casal se conhece ou não se conhece? Depende do ponto de vista do telespectador. William Shimell, um cantor de ópera que estava inseguro em aceitar o papel, atua muito bem e seu personagem chegou a me dar ranço em alguns momentos, mas que faz sentido se vermos o filme sobre a ótica do telespectador que está enxergando o filme da outra forma. A direção do iraniano, Kiarostami, é maravilhosa e nos maravilha com pitadas da cultura persa com um poema. O filme se passa na Itália, mas é mais uma produção francesa do que italiana, por isso cadastrei como um filme francês no blog. Desses filmes que mostra que não precisa ser raso para ser gostoso de assistir.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

TEMPO DE EMBEBEDAR CAVALOS

Título Original: Zamani Barayé Masti Asbha
Diretor: Bahman Ghobadi
Ano: 2000
País de Origem: Irã
Duração: 75min
Nota:  10

Sinopse: Cinco crianças órfãs vivem em uma vila bem remota, na fronteira entre o Irã e o Iraque. Ayoub e sua irmã Ameneh trabalham em um bazar e cuidam de Madi, irmão caçula, que necessita com urgência de uma cirurgia.

Comentário: Pensa em um filme de quebrar o coração, agora multiplica por infinito. Primeiro filme do Ghobadi, que era assistente de Abbas Kiarostami, gigante-mor do cinema iraniano. O filme ganhou o Câmera de Ouro em Cannes e é de difícil digestão, pois ao mesmo tempo que é um murro bem dado na sua cara, fica a questão ética de como ele foi feito, pois é cru e cruel, temos cavalos sendo tratados como na realidade, também temos um deficiente físico sendo colocado em situações difíceis e sabemos que o cinema iraniano não é feito de maneira pomposa como nos Estados Unidos. Minha análise então vai ser do filme, imparcial, como um Capitão Picard respeitando a Primeira Diretriz. O filme é capaz de amolecer o coração mais duro, ver crianças em situações como esta e sabendo que é algo extremamente real e até comum nesse mundão aí fora é de acabar com qualquer um, os atores (que foram selecionadas entre pessoas comuns) dão um show de realidade, nos apegamos a todos os personagens e suas dores. O filme acabou e eu não acreditava no que eu tinha assistido. Um filme controverso, mas com certeza um dos mais importantes de toda a história do cinema.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O VERÃO DOS PEIXES-VOADORES

Título Original: El Verano de los Peces Voladores
Diretora: Marcela Said
Ano: 2013
País de Origem: Chile
Duração: 95min
Nota:  8

Sinopse: Manena é uma adolescente determinada, filha de Pancho, um rico fazendeiro chileno que dedica suas férias a uma obsessão: exterminar as carpas que invadem seu lago. No decorrer do verão, enquanto ele recorre a métodos cada vez mais extremos, Manena sofre com sua primeira decepção amorosa e descobre um mundo que coexiste silenciosamente com o seu – o dos trabalhadores indígenas Mapuche que reivindicam acesso às terras e enfrentam seu pai.

Comentário: Eu gostei muito do filme e me senti hipnotizado com a maneira com que a diretora colocou todas as discussões de maneira sutil, quase nas entrelinhas do que está acontecendo. A classe média rica do Chile é um retrato da do Brasil, e porque não do mundo? Os diálogos toscos do seu pai, o impacto disso na personagem conforme ela vai entendendo o cenário sociopolítico em que ela está inserida é de encher os olhos. As imagens da natureza são sublimes, o conflito interno de Manena também, ela tem que lidar com seus sentimentos românticos ao mesmo tempo que entende sobre o mundo em que vive. O ritmo do filme não é para qualquer um, pode parecer entrecortado demais, vazio demais, estranho demais... mas é meu tipo de filme. PS: Atenção para o diálogo de Pancho com o policial onde brota todo egocentrismo da elite escrota e também uma menção a atuação da Francisca Walker que é uma gracinha.

sábado, 24 de agosto de 2019

FELIZ COMO LÁZARO

Título Original: Lazzaro Felice
Diretora: Alice Rohrwacher
Ano: 2018
País de Origem: Itália
Duração: 127min
Nota:  7

Sinopse: Lázaro era um jovem satisfeito com a vida simples do campo, mas a amizade inesperada com o filho de uma marquesa acaba mudando totalmente o rumo de sua história.

Comentário: O filme ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes, mas ainda prefiro ao filme anterior da diretora (As Maravilhas). O filme tem vários pontos que funcionam muito bem, a referência bíblica de Lázaro misturado a uma fábula italiana como só Italo Calvino sabia escrever casam muito bem, a crítica ferrenha ao capitalismo e a várias características da cultura italiana também só acrescentam qualidade ao filme. O ponto negativo ao filme, na minha opinião, é exatamente ao personagem principal, por ele ser um tremendo idiota, fica difícil uma conexão com ele, que representa a ignorância do explorado, mais conhecido no Brasil como o "pobre de direita": Lázaro é aquele cara que é explorado, fazem de idiota, mas está sempre defendendo o patrão. Achei também que o filme tem uma duração grande para a história que se propõe a contar, mas nada que tire o impacto da direção tão competente e extraordinária da Alice Rohrwacher.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

GAROTA

Título Original: Girl
Diretor: Lukas Dhont
Ano: 2018
País de Origem: Bélgica
Duração: 106min
Nota:  9

Sinopse: Aos 15 anos, a bailarina Lara enfrenta barreiras físicas e emocionais enquanto se prepara para a cirurgia de confirmação de gênero. Inspirado em uma história real.

Comentário: Vencedor do prêmio Câmera de Ouro e de melhor ator no prêmio Um Certo Olhar em Cannes e indicado para melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro, este filme dividiu opiniões dentro da comunidade LGBT. Eu vou entrar de cabeça na defesa do filme. O filme é tenso, consegue ser tenso até nas cenas de dança, o trabalho empático de nos colocar na pele de uma garota trans de 15 anos é feito de maneira sublime. Uma parte da comunidade LGBT criticou o filme por ter sido dirigido e atuado por cisgêneros, fato que fez com que Nora Monsecour (a mulher em que o filme é baseado) vir em defesa do filme: “Quem está criticando Girl está impedindo que outras histórias trans sejam compartilhadas com o mundo. Todos os dias em que vejo pessoas trans lutando por seus sonhos. Eles não são fracos e frágeis e Girl conta uma história sem mentiras. Dizer que a experiência de Lara [a personagem do longa], não é valida por termos um ator cis ou por ter sido dirigida por Lukas [Dhont, o diretor], acaba me ofendendo”. Acho esse tipo de atitude muito parecida com os evangélicos, que vivem fechados em suas igrejas convivendo com evangélicos e fazendo coisas de evangélicos, tenho um livro publicado onde o assunto LGBT é muito forte, eu não devia ter escrito este livro por ser cis? O ator faz um trabalho magnífico e sua escolha faz todo o sentido, já que o ator Victor Polster é um bailarino. A gente fica pensando em tantas pessoas trans por aí, sofrendo horrores, se para Lara que tem um pai de ouro e vive um inferno, imagina para tantos outros que sofrem o pesadelo de viverem em um corpo que não se identificam e ainda são abandonados pela família. Levantar a bandeira LGBT não é uma luta só de quem é, levantar essa bandeira é um dever empático de ser humano. PS: Traduzi o título porque tenho horror a título em "ingrêis".

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA

Título Original: Bir Zamanlar Anadolu'da
Diretor: Nuri Bilge Ceylan
Ano: 2011
País de Origem: Turquia
Duração: 151min
Nota:  9

Sinopse: Nas planícies da Anatólia, na Turquia, um grupo composto de um policial, um médico legista e um advogado conduz dois prisioneiros em busca do local onde enterraram sua vítima. Já é tarde da noite e, em meio à escuridão, eles não conseguem mais encontrar o local exato onde foi colocado o cadáver. Entre as divagações e os deslocamentos, o advogado e o médico começam a se conhecer melhor, percebendo que eles têm pontos de vista muito diferentes sobre a vida.

Comentário: Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2011. Nuri Bilge Ceylan, para mim, é um dos maiores diretores da atualidade e o filme posterior a este, Sono de Inveno, é um dos melhores filmes dos últimos dez anos. Era uma Vez na Anatólia é uma bela surpresa, sua história simples e reflexiva demonstra todo o poder de uma excelente narrativa, sem necessidade de nada muito mirabolante. A fotografia é belíssima e os personagens são profundos, são praticamente duas horas onde a única coisa que acontece é a busca por um corpo na estrada entre vilarejos, mas onde várias outras sub-histórias começam a acontecer entre diálogos. Achei que o filme perde um pouco a força em sua meio hora final, quando ele sai do elemento construído até ali, mas nada que estrague sua narrativa. Não achei o filme cansativo e nem arrastado, muito pelo contrário, me senti preso a ele. Gostei muito do personagem do Comissário Naci, com seu jeito explosivo e se sentindo constrangido a todo momento. O embate entre a fé do promotor contra o ceticismo do médico rende a verdadeira grande história do filme. Um filme difícil de descrever, inovador e de uma sensibilidade ímpar.