domingo, 6 de outubro de 2024

MALENA

Título Original: Malèna
Diretor: Giuseppe Tornatore
Ano: 2000
País de Origem: Itália
Duração: 108min
Nota: 8

Sinopse: Em 1941, numa pequena vila localizada na Sicília, um grupo de garotos de 13 anos de idade nutre uma profunda paixão por Malena (Monica Bellucci), a viúva de um soldado local, despertando uma história de amor, perda e coragem.
 
Comentário: Indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim e a dois Oscars. A história te prende, a direção é soberba e a produção é gigantesca, mas é a Bellucci que chama a atenção aqui, o resto não chega a importar tanto. Passamos o filme obcecado como o garoto. Confesso que achei bem controverso as cenas dela com o ator mirim Giuseppe Sulfaro (bela interpretação diga-se de passagem), me remeteu muito a toda história da Xuxa no filme Amor Estranho Amor. Tem um ritmo meio Hollywood e umas situações meio exageradas e vai mudando de tom conforme vai avançando, ficando mais pesado. Não gostei muito de alguns pontos do desfecho e achei que no fim a história não acrescenta muito, mas é um filme muito bom, mas muito longe da nota 10 de um Cinema Paradiso.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

DOVLATOV

Título Original: Dovlatov
Diretor: Aleksei German Jr
Ano: 2018
País de Origem: Rússia
Duração: 126min
Nota: 7

Sinopse: Filme sobre a vida do renomado escritor russo de origem armênia Sergei Dovlatov. As ações do filme se desenrolam em 1971, contando sobre quatro dias na vida do famoso escritor. O filme levanta a questão eterna da cultura russa e europeia - a questão da escolha moral.
 
Comentário: Indicado ao Urso de Ouro e vencedor de um prêmio fora da competição principal no Festival de Berlim. Não conheço a obra de Dovlatov, fato que talvez venha a remediar, mas não posso dizer que nutri muita simpatia pelo personagem título durante a película: mimado, irresponsável e pedante. O filme demora demais para se tornar interessante, porém em sua reta final eu confesso que estava grudado na tela, por isso ganhou pontos na minha nota. É mais interessante pelo cenário em torno que vai sendo construído do que pelo personagem em si. Há diálogos ótimos e situações que despertam uma excelente discussão. No geral é um bom filme, mas é muito de nicho, maioria das pessoas não irão gostar. Não posso terminar sem falar da atuação do Milan Maric, que faz um excelente trabalho como Dovlatov, é ele que segura boa parte das partes que não funcionam tão bem, mantendo o telespectador interessado. A parte técnica é impecável.

sábado, 28 de setembro de 2024

O AUTO DA COMPADECIDA

Título Original: O Auto da Compadecida
Diretor: Guel Arraes
Ano: 1999
País de Origem: Brasil
Duração: 161min
Nota: 9

Sinopse: No Brasil, dois nordestinos pobres e espertos vivem de enganar pessoas para sobreviver. Quando conhecem uma moça rica, eles têm esperança de se darem bem, mas seus planos são interrompidos pela chegada de um bandido forasteiro.
 
Comentário: Acho que eu era a única pessoa de nacionalidade brasileira que nunca havia visto isso, já que eu nunca quis ver a versão para o cinema (e mais conhecida) que contém cortes da obra original, que é uma mini série para a televisão em quatro episódios. Pois bem, finalmente consegui  achar esta versão sem cortes para a TV e assisti depois de 25 anos. E não é que é bem boa mesmo? Trazendo o universo de Suassuna para a tela, funciona exatamente por ser bem brasileira, por ter uma identidade dos rincões do país imenso que é o Brasil. Tudo funciona bem exatamente por não tentar ser grandioso, são os detalhes, as pequenas histórias que vão sendo contadas e vão se interconectando. Roteiro excelente, elenco afiadíssimo. Filme não envelheceu nada, vendo décadas depois, continua atual e muito bem feito. Nem um pouco empolgado para ver a continuação, acho que se fecha muito bem sem a necessidade disso.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

LIÇÃO DE CASA

Título Original: Mashgh-e Shab
Diretor: Abbas Kiarostami
Ano: 1989
País de Origem: Irã
Duração: 71min
Nota: 7

Sinopse: Neste documentário, Kiarostami pergunta a vários alunos sobre seus deveres de casa da escola. As respostas de algumas crianças mostram o lado mais obscuro deste método de educação.
 
Comentário: Outro curta feito para o Instituto para Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos, mas o que difere esse dos outros é mostrar como a Guerra Irã-Iraque afetava o pensamento das crianças. Apesar do foco ser a lição de casa, que dá o título ao documentário, é interessante ver como as crianças falam do cenário em guerra naquele momento. Tirando isso, é um pouco mais do mesmo do que Kiarostami havia feito até ali. Como fui criado em uma família cheia de pedagogos achei a discussão muito pertinente, tanto quando são as crianças falando como os adultos. Triste também notar que a "cultura" da lição de casa pouco mudou, nossas crianças ainda são bombardeadas comresponsabilidades que não condiz com a realidade e muitas vezes chega até a obrigá-las a perder um pouco da infância. Vejo esse reflexo nos meus sobrinhos nos dias atuais.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

O PORTO

Título Original: Le Havre
Diretor: Aki Kaurismäki
Ano: 2011
País de Origem: França
Duração: 94min
Nota: 8

Sinopse: Quando um menino africano chega de navio cargueiro à cidade portuária de Le Havre, um engraxate idoso fica com pena da criança e a recebe em sua casa.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor do prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e de outros dois no Festival de Cannes. Concordo com quem diz que o estilo do diretor combina mais com os cenários finlandeses, mas achei que no geral o filme não fica devendo em nada ao estilo característico do diretor. Gosto da insistência positivista de seus filmes, por mais que ele não deixe de lado as mazelas de seus personagens e  da critica político-social, há também o foco na bondade do ser humano, em um microcosmo de solidariedade e empatia. Não sou um grande conhecedor da obra de Kaurismäki, mas as "musas" de seus filmes parecem robôs, e acho isso interessante, dá muito o que pensar. O elenco todo está muito bem, a mensagem sobre imigração funciona, e isso na Europa de hoje é algo importantíssimo (infelizmente necessária). Não achei inferior a Folhas de Outono, mesmo alto nível.

sábado, 21 de setembro de 2024

NUNCA DEIXE DE LEMBRAR

Título Original: Werk Ohne Autor
Diretor: Florian Henckel von Donnersmarck
Ano: 2018
País de Origem: Alemanha
Duração: 189min
Nota: 9

Sinopse: Kurt Barnert (Tom Schilling) é um artista alemão que conseguiu escapar da Alemanha Oriental. Agora, ele vive seus dias na Alemanha Ocidental, mas ainda assim é atormentado pelos traumas da sua infância sob o regime dos nazistas e da República Democrata Alemã (RDA).
 
Comentário: Indicado ao Leão de Ouro e vencedor de outros dois prêmios fora da competição principal no Festival de Veneza, foi também indicado a dois Oscars. Primeiramente quero deixar registrado que essa sinopse dada ao filme não faz nenhum sentido, já que ele parte da Alemanha Oriental para a Ocidental já praticamente depois de duas horas de filme. O filme é uma biografia, bem fiel pode-se dizer em relação aos fatos pelo menos, do grande pintor Gerhard Richter, provavelmente todos os nomes foram trocados por não ter sido autorizado pelo mesmo. Para título de curiosidade, o médico se chamava Henry Eufinger e morreu sem ser responsabilizado por nada, Richter só veio a saber da relação de seu ex-sogro (pois se separou da esposa em 1982) com sua tia depois da publicação de um artigo no jornal Tagesspiegel em 2004. Os quadros mesclando fotografias não são exatamente como no filme, mas na mesma coleção havia foto da tia e do sogro em outro quadro. Fui descobrir que se tratava da biografia de Richter depois de duas horas de filme quando aparece o Joseph Beuys (usando o nome de Antonius van Verten), foi então que ligou todos os pontos na minha cabeça, Beuys é disparado meu artista preferido, sou meio obcecado pela obra dele e já escrevi alguns textos sobre seu trabalho e maneira de pensar. O bombardeio de Dresden, mostrado no filme, é considerado talvez o pior bombardeio depois das bombas no Japão durante a Segunda Guerra e foi retratado por Kurt Vonnegut, um sobrevivente, no livro Matadouro Cinco. No geral gostei muito do filme, achei que as horas passaram voando. Richter produziu coisas bem mais interessantes no período posterior ao filme e hoje ainda está vivo com seus 92 anos.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

SHÉHÉRAZADE

Título Original: Shéhérazade
Diretor: Jean-Bernard Marlin
Ano: 2018
País de Origem: França
Duração: 111min
Nota: 8

Sinopse: Zachary, um jovem de 17 anos, acaba de sair da prisão. Rejeitado pela mãe, ele vive pelas ruas em áreas perigosas de Marselha. É nessa situação que ele conhece Shéhérazade.
 
Comentário: Indicado ao Câmera de Ouro no Festival de Cannes. Dá para dizer que o filme abre uma "trilogia" de filmes que retratam o lado escuro da França que ninguém quer mostrar (o segundo filme seria o excelente Os Miseráveis do diretor Ladj Ly de 2019 e o terceiro o mais recente Os Piores dos diretores Lise Akoka & Romane Gueret de 2022). Aqui a narrativa é mais simples e não tão inovadora, quase um clichê mesmo, mas a maneira que o diretor escolheu contar sua história emociona, pela crueza e crueldade. O elenco se entrega ao filme demais. O casal constrói sua história sobre tantos detritos e lixos de suas vidas que é impossível não se entregar ao sentimentalismo ao final. É brutal e doce, vale a pena assistir.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

DEPOIS DO ENSAIO

Título Original: Efter Repetitionen
Diretor: Ingmar Bergman
Ano: 1984
País de Origem: Suécia
Duração: 73min
Nota: 8

Sinopse: Henrik Vogler, um consagrado diretor de teatro, costuma permanecer no teatro depois dos ensaios, trabalhando ou dormindo. Anna, a promissora atriz principal de sua nova montagem, retorna depois do ensaio em busca de um bracelete esquecido. O que se segue desse encontro casual leva-nos ao limite entre encenação e realidade, entre arte e vida, entre indivíduos, máscaras e papéis - dentro e fora do teatro.
 
Comentário: Filme feito para a televisão depois que Bergman havia anunciado sua aposentadoria do cinema com Fanny & Alexander. Eu gostei bastante, trás excelentes diálogos com um tom autobiográfico metalinguístico casando muito bem com o teatro, essa atmosfera que Bergman amava tanto. Lena Olin está tão nova, não reconheci ela no começo, já mostrava o talento que tem até hoje. Erland Josephson e Ingrid Thulin sã monstros do cinema, ver os dois em cena é sempre ótimo. Uma galera diz que é um trabalho do Bergman, mas sou obrigado a discordar completamente, é muito bom e para mim tem o mesmo peso de muitos grandes filmes do diretor feitos para o cinema. Filme obrigatório na filmografia bergniana.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

ESTADOS UNIDOS PELO AMOR

Título Original: Zjednoczone Stany Milosci
Diretor: Tomasz Wasilewski
Ano: 2016
País de Origem: Polônia
Duração: 101min
Nota: 7

Sinopse: Polônia, 1990. O primeiro ano eufórico de liberdade, mas também de incerteza quanto ao futuro. Quatro mulheres aparentemente felizes, de diferentes idades, decidem que é hora de mudar suas vidas e realizar seus desejos.
 
Comentário: Indicado ao Urso de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Berlim. Um filme pesadíssimo sobre quatro mulheres, mas que diz muito também sobre o comportamento masculino repleto de condicionamentos do patriarcado. As histórias são contadas separadas, como se o filme fosse feito por diferentes curtas, mas que se conectam em determinados pontos. Amores platônicos, traições, sociopatias, comportamento abusivo, estupro de incapaz... o filme tem de tudo um pouco. A falta de conexões reais entre os personagens diz muito sobre o mundo hoje também, que tem se tornado cada vez mais artificial nessa Sociedade-Instagram. A paleta de cores desse filme é fantástica, diretor conseguiu passar o clima frio entre os personagens na fotografia também. Um bom filme, mas que tem que estar meio que preparado, porque não é tão fácil de digerir.

terça-feira, 17 de setembro de 2024

EU NÃO ME IMPORTO SE ENTRARMOS PARA A HISTÓRIA COMO BÁRBAROS

Título Original: Îmi Este Indiferent Daca în Istorie Vom Intra ca Barbari
Diretor: Radu Jude
Ano: 2018
País de Origem: Romênia
Duração: 138min
Nota: 8

Sinopse: Uma artista recebe financiamento para encenar um espetáculo sobre uma batalha de guerra na Romênia e recebe críticas dos produtores por incluir um retrato realista do tratamento dado aos judeus por seu país durante a Segunda Guerra Mundial.
 
Comentário: Achei a narrativa até a metade meio entrecortada demais, não te prende muito, porém quando o filme passa da metade você já está completamente fisgado, se desenvolve melhor quando deixa de focar muito no relacionamento que não leva a lugar nenhum da diretora com o piloto. O espetáculo e a relação com o seu entorno é muito interessante, o comportamento fascista tosco de muitos romenos é nítido quando se convive com eles, e eu convivo com vários no meu local de trabalho. Radu Jude faz um belo filme aqui e já desponta como um dos grandes diretores europeus deste século, não há um filme mais ou menos que eu tenha assistido dele. O elenco também está espetacular, com diálogos afiadíssimos em momentos chaves. No final fica a reflexão e a explicação muito nítida do porque a Europa está como está hoje.