domingo, 16 de outubro de 2022

ISSO NÃO É UM ENTERRO, É UMA RESSURREIÇÃO

Título Original: This Is Not a Burial, It's a Resurrection
Diretor: Lemohang Jeremiah Mosese
Ano: 2019
País de Origem: Lesoto
Duração: 116min
Nota:  10

Sinopse: Quando sua aldeia é ameaçada de realocação forçada devido à construção de um represa, uma viúva de 80 anos encontra uma nova vontade de viver e acende o espírito de resiliência dentro de sua comunidade.
 
Comentário: Que filme! É até difícil falar. Vencedor de dezenas de prêmios em festivais e com provavelmente a melhor atuação do ano, Mary Twala simplesmente leva o filme nas costas... e olha que nem precisava, porque a película tem uma condução digna de um Bergman ou Tarkovski. O filme é o mais necessário impossível em uma sociedade capitalista agressiva como vivemos hoje e nos bombardeia com discussões profundas em vários sentidos diferentes. O início é meio inebriante, um ritmo que te hipnotiza, você acha que não vai entrar na vibe do filme e quando vê já está lá no Lesoto. Paralelos com o Brasil são extensos, país de terceiro mundo explorado por europeus parecem sofrer da mesma sina. Um filme que quero revisitar no futuro, mas que não é para quem está acostumado a somente Hollywood.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O OUTRO LADO DO RIO

Título Original: Aliyê Din Ê Çem
Diretor: Antonia Kilian
Ano: 2021
País de Origem: Curdistão
Duração: 91min
Nota:  8

Sinopse: Hala, de 19 anos, escapa de Minbij, no norte da Síria, atravessando o Eufrates e acaba no exército curdo. Após seu treinamento, ela retorna à sua cidade natal como policial com a intenção de salvar suas irmãs mais novas do fundamentalismo religioso.

Comentário: O filme é um documentário e mostra de maneira crua e descompromissada o dia a dia de uma garota que faz parte da resistência curda contra o Estado Islâmico e o Governo Fascista Turco. Meu foco de estudo na faculdade de economia foi a teoria do confederalismo democrático de Abdullah Öcalan que foi responsável pela revolução curda em Rojava. Portanto qualquer coisa sobre o assunto tem prioridade para mim. Achei o documentário muito bom, pois não tenta servir como marketing, nos coloca frente a frente com a realidade, inclusive apontado alguns erros em como algumas coisas são feitas por lá. Acredito que a revolução curda é uma das coisas mais importantes do mundo contemporâneo atual, é preciso ser discutido, mas a mídia parece fazer de tudo para abafar o que está acontecendo por lá. Um documentário essencial para quem quer se manter informado ou para que sirva de porta de entrada para a revolução, que para mim, é a mais importante da história humana recente.

domingo, 18 de setembro de 2022

CONCORRÊNCIA OFICIAL

Título Original: Competencia Oficial
Diretor: Mariano Cohn & Gastón Duprat
Ano: 2021
País de Origem: Espanha
Duração: 114min
Nota:  10

Sinopse: Dois atores com trajetórias muito diferentes se chocam durante a preparação de um filme, financiado por um milionário ansioso por notoriedade, e dirigido por uma prestigiosa diretora excêntrica.

Comentário: Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. Fui assistir ao filme sem esperar nada e me surpreendeu muito positivamente, achei brilhante! Digo que é um dos filmes mais pretensiosos feito de maneira mais despretensiosa possível. Uma crítica ácida ao cinema pipoca que dominou a grande mídia nos dias atuais, sem perder o bom humor. Provando que é possível fazer um bom cinema sem cair no pseudocult. As atuações são mero detalhe que enchem os olhos do espectador e a direção é extremamente competente. É estranho ver um filme, que até certo ponto é comercial demais, com tanto conteúdo. É uma espécie de filme em extinção que antes nos era tão comum. Um dos melhores filmes do ano de 2021 com certeza.

sábado, 17 de setembro de 2022

O PERDÃO

Título Original: Ghasideyeh Gave Sefid
Diretores: Behtash Sanaeeha & Maryam Moghaddam
Ano: 2020
País de Origem: Irã
Duração: 105min
Nota:  7

Sinopse: A vida de Mina é virada do avesso quando descobre que o marido Babak estava inocente do crime pelo qual foi executado. As autoridades pedem desculpa pelo erro e oferecem a hipótese de compensação financeira. Mina inicia uma batalha silenciosa contra um sistema cínico por ela e pela sua filha. Um olhar magistral sobre a vida de uma mulher iraniana.
 
Comentário: Indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. O filme é bem interessante e bem conduzido, mas o grande trunfo é a atuação de Maryam Moghadam, personagem principal da história, e sua filha interpretada por Avin Poor Raoufi (não sei se ela é surda na vida real) que rouba as cenas com suas linguagens de sinais por todo o filme. As críticas ao sistema cheio de falhas no Irã, ao machismo inerente (onde uma viúva tem dificuldades até de alugar um imóvel por não ter um marido) e a culpa dos erros deste sistema que consome o personagem de Reza colidem na cara do telespectador sem filtros. Toda a simbologia em torno da Vaca (que tem relação a uma passagem do alcorão que religiosos utilizam para justificar a pena de morte) permeiam o filme. O que mais me desagradou foi o desfecho, é forte, porém esperava mais.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

DECISÃO DE PARTIR

Título Original: Heojil Kyolshim
Diretor: Park Chan-wook
Ano: 2022
País de Origem: Coréia do Sul
Duração: 138min
Nota:  10

Sinopse: Um detetive (Park Hye-il) se apaixona por uma misteriosa viúva (Tang Wei) após ela se tornar a principal suspeita em seu último caso que investiga um homicídio.

Comentário: Indicado ao Palma de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes. É o tipo de filme que ou te pega ou não, e me pegou em cheio. Fiquei maravilhado! Daqueles que mesmo que você ame não indica para ninguém, porque é cheio de particularidades que você sabe que não caem no gosto de todo mundo. A direção é incrível, achei a condução muito boa, mesmo que fique estranha as vezes, com cortes nada convencionais. Há detalhes que se conectam de maneira imperceptíveis a outros. "Você não deixa de amar alguém porque ela casou" ou "Apesar de eu ter sofrido bastante por tua causa, minha vida não foi vazia graças a ti" são frases que me marcaram na alma, que fazem do filme ter essa força devastadora que me atinge. O elenco está perfeito, o final é catártico. Os detalhes fazem o filme. A minha nota 10 talvez seja exagerada, mas é porque me arrebatou mesmo, acho que no fundo sou exatamente como o detetive que não consegue dormir e tenta esquecer alguém.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O CORRETOR

Título Original: Beurokeo
Diretor: Hirokazu Koreeda
Ano: 2022
País de Origem: Coréia do Sul
Duração: 129min
Nota:  8

Sinopse: Uma caixa de bebê é um pequeno espaço onde os pais podem deixar seus bebês anonimamente. E é em torno desta caixa que o relacionamento das pessoas será explorado.

Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Ator para Song Kang-ho no Festival de Cannes. Achei que o diretor tentou beber demais na própria fonte de seu filme Assunto de Família, criando uma nova família disfuncional, mas daí fica difícil assistir sem estabelecer comparações, e Assunto de Família é um filme imbatível em quase todos os aspectos. Achei que o filme se estende demais e tem um corte de edição meio esquisito as vezes, fica confuso, a gente não sabe exatamente o que o diretor quer passar. Um final apressado demais pelo todo desenrolar do filme, mas apesar das reclamações o saldo é bem positivo. Há momentos lindos, os atores se entregam, há química em todo o conjunto. Koreeda é foda, e isso por si só já segura muito bem o filme. Baita direção. Fui assistir ao filme achando que era japonês e me surpreendi em ver o diretor fazendo um filme sul coreano.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

ME LEVE PARA UM LUGAR LEGAL

Título Original: Take Me Somewhere Nice
Diretor: Ena Sendijarevic
Ano: 2019
País de Origem: Bósnia e Herzegovina
Duração: 91min
Nota:  7

Sinopse: No começo da vida adulta, Alma (Sara Luna Zoric) deixa a casa da mãe na Holanda e viaja para sua terra natal, a Bósnia, para encontrar o pai que nunca conheceu. Mas desde o início, nada corre como planejado. Seu primo Emir (Ernad Prnjavorac) não é receptivo e zomba da vida fácil da jovem na Holanda. Ao mesmo tempo, uma forte atração sexual leva a jovem a se relacionar com o melhor amigo de Emir, o problemático Denis (Lazar Dragojevic). À medida que os obstáculos aumentam, Alma segue determinada a achar o pai. Ela só precisará conhecer a si mesma antes.
 
Comentário: O filme é pseudocult? É! Tem inúmeras incongruências narrativas? Têm! Mas dizer que o filme é vazio e chato acho exagero. A estética é linda, mas é óbvio que foi feito pensando em um público acostumado a filmes mais americanizados de festival (Não a toa o título original é em inglês ou a fita cassete no carro de um cara que mora isolado em uma área rural da Bósnia vai ter Sonic Youth gravado). Mas é um filme bem interessante do ponto de vista sobre a imigração, já que se trata de um país dentro da Europa, portanto de europeus, que vivem à parte por não serem integrantes do bloco econômico da União Europeia. Alma provavelmente tem uma vida de merda na Holanda, sem identidade, uma europeia imigrante dentro da Europa, conheço vários assim por aqui (vivo no Reino Unido). O diálogo onde o motorista diz "O que a Holanda fez por nós?" e continuam com várias perguntas apontando outros países é sensacional, demonstra bem esses países abandonados a própria sorte no mesmo continente. Há inúmeras cenas como essa em conta gotas durante toda a película. Um filme sobre a identidade, acho que tem muito mais força para quem vive como imigrante. O final é interessante, pois remete a um diálogo no filme (não quero dar spoiler), mas deixa um pouco a desejar. Achei acima da média de um modo geral e apreciei bastante.

domingo, 28 de agosto de 2022

A PASTORA E AS SETE CANÇÕES

Título Original: Laila Aur Satt Geet
Diretor: Pushpendra Singh
Ano: 2020
País de Origem: Índia
Duração: 98min
Nota:  8

Sinopse: Com o conflito na Caxemira como pano de fundo, o longa conta a história da pastora nômade Laila. Embora ela se torne a esposa de Tanvir, a jovem atrai a atenção de toda a tribo, especialmente do policial Mushtaq, que está determinado a conquistá-la. Em meio à deslumbrante paisagem do Himalaia, onde a polícia e os militares monitoram rigorosamente cada movimento em todas as fronteiras, os dois trocam réplicas amorosas que fogem do controle. Inspirado na poesia de Lalleshwari, místico da Caxemira do século XIV.

Comentário: Selecionado no Festival de Berlim em uma das premiações paralelas, este filme me surpreendeu muito positivamente, principalmente pelos seus alívios cômicos. Esses filmes indianos tendem, muitas vezes, a cair no dramalhão. As imagens são lindas e a direção nos pega de surpresa por se tratar de um estreante. O final me tirou o fôlego e me espantou bastante pela ousadia, sem medo de seguir caminhos diferentes (experimentais talvez?). Achei que o filme é de uma sensibilidade com a figura feminina que muitas vezes é ignorada por culturas predominantemente machista. A divisão do filme entre as "sete canções" ajuda muito no ritmo em que a história é contada e vamos aos poucos pegando uma simpatia pelo personagem Mushtaq, muito bem interpretado por Shahnawaz Bhat. Cheguei até a pensar que os atores eram de vilarejos da Caxemira utilizados pelo diretor, mas  vi que são atores mesmo com outros trabalhos anteriores. Navjot Randhawa, que interpreta Laila, tem talento de sobra, espero que ganhe mais papéis de destaque no futuro, pois merece.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

OS MISERÁVEIS

Título Original: Les Misérables
Diretor: Ladj Ly
Ano: 2019
País de Origem: França
Duração: 104min
Nota:  9

Sinopse: Stéphane (Damien Bonnard) é um jovem que acaba de se mudar para Montfermeil e se junta ao esquadrão anti-crime da comuna. Colocado no mesmo time de Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djibril Zonga), dois homens de métodos pouco convencionais, ele logo se vê envolvido na tensão entre as diferentes gangues do local.
 
Comentário: Vencedor do Prêmio do Juri no Festival de Cannes, dividindo-o com Bacurau. O filme parece não trazer nada de novo até certo ponto, até dar uma guinada completa nos eventos que levam ao incrível desfecho simplesmente arrebatador. O tanto de discussões que ele escancara com um murro direto na cara do espectador são incontáveis, o próprio policial novato que somos levados de maneira muito bem conduzida a nos identificar, não passa de um passador de pano em linhas gerais. O problema da imigração para a Europa é tratada aqui da maneira crua como é, pois de quem é a culpa da pobreza na África se não dos próprios europeus? Quem melhor para pagar esta conta agora? Sem tirar o mérito do filme brasileiro com o qual dividiu o prêmio, achei este mais direto ao ponto, mais visceral e bem construído, mas o mais interessante é como os dois filmes dialogam muito bem entre si, fazendo deles quase irmãos separados por diferentes continentes. Vale muito a assistida... e que final! QUE FINAL!

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

A MÃO DE DEUS

Título Original: È Stata La Mano di Dio
Diretor: Paolo Sorrentino
Ano: 2021
País de Origem: Itália
Duração: 130min
Nota:  10

Sinopse: Ambientada na tumultuada Nápoles da década de 1980, “A Mão de Deus” é uma narrativa repleta de alegrias inesperadas, como a chegada da lenda do futebol Diego Maradona. Mas também não faltam tragédias. O destino faz a sua parte, misturando alegrias e tristezas, e o futuro de Fabietto está em jogo. Sorrentino volta à cidade onde nasceu para contar uma história muito pessoal sobre destino, família, esportes, cinema, amores e perdas.

Comentário: Vencedor do Leão de Prata no Festival em Veneza. Achei o filme maravilhoso, porque é exatamente o tipo de filme que eu gosto, cheio de sentimentos, que vão do luto à alegria e que desemboca em uma lição de vida sem ser piegas. A coragem do diretor em contar sua história com esta crueza de detalhes foi realmente algo brilhante. Para mim, tudo no filme funcionou, não há nada que eu consiga criticar, inclusive daria o Leão de Ouro fácil para ele. Gosto de filmes sobre crescimento, onde não há necessariamente a fórmula pronta da jornada do herói de Joseph Campbell, onde o personagem é algo completamente diferente no final do filme do que ele era no começo, mas mostrado da maneira como a vida age, sem rodeios. É uma fábula realista. Lindo!