terça-feira, 4 de agosto de 2020

ENTRE DOIS MARES

Título Original: Between Two Seas
Diretor: Anas Tolba
Ano: 2019
País de Origem: Egito
Duração: 87min
Nota: 8

Sinopse: Uma família de uma área rural no Egito é dividida após um trágico acidente. A busca de uma mãe por redenção, vingança e esperança define os eventos dessa história dramática de uma sociedade esquecida.

Comentário: Primeiro longa metragem do diretor Anas Tolba e vencedor dos prêmios de melhor roteiro e filme narrativo no festival de cinema do Brooklyn. O filme é carregado de uma sensibilidade ímpar, sobre mulheres que são tratadas como mercadorias em uma sociedade machista e doente. A direção é espetacular, o diretor é extremamente talentoso e sabe muito bem aproveitar suas qualidades técnicas. As interpretações também são impecáveis. A narrativa do filme foge bastante do que a galera está acostumada, mas ao mesmo tempo tenta não ser uma narrativa difícil para quem nunca assistiu este tipo de filme sobre uma ótica de um povo completamente diferente de nós. Um filme de esperança, de tragédia, de sentimentos que muitas vezes não conseguimos controlar. O filme foi feito em colaboração com o Conselho Nacional das Mulheres do Egito e da UN Women. Impossível assistir e não ser inundado por vários tipos de sentimentos diferentes. A mensagem religiosa geral é a única coisa realmente que não me desce, mas é a cultura deles, mas existe uma crítica bem construída de algumas pessoas religiosas que é muito boa também.

terça-feira, 28 de julho de 2020

POESIA

Título Original: Shi
Diretor: Chang-dong Lee
Ano: 2010
País de Origem: Coréia do Sul
Duração: 139min
Nota: 9

Sinopse: Mija vive com seu neto em uma cidade localizada nas encostas do rio Han. Por acaso, ela acaba entrando em uma "aula de poesia" e é desafiada pela primeira vez em sua vida a escrever um poema. Mija nasce novamente. Como uma criança que se surpreende com a vida, ela parece estar vendo tudo como se fosse a primeira vez, mas quando a realidade cruel chega, ela acaba tendo que retornar e ver que o mundo não é tão bonito quanto ela imaginava.

Comentário: Um filme muito bem arquitetado e vencedor do prêmio de melhor roteiro em Cannes. A atriz, Jeong-hie Yun, é talvez o principal motivo do filme funcionar tão bem, ela leva o filme nas costas fácil fácil. Ela era uma atriz que fez muitos filmes desde a década de 60 no país e que estava aposentada das telas desde 1994, voltou a ativa apenas para fazer este filme desde então, o filme merece ser assistido nem que seja para ver sua atuação. O filme é bem sútil, mesmo quando aborda assuntos pesados, e pode parecer que não vai chegar a lugar nenhum em determinado momento, mas o desfecho vale muito toda a experiência, diria até que tem um toque de Machado de Assis, simplesmente brilhante. Acho que tanto este filme como o Cópia Fiel mereciam muito mais ganhar o Palma de Ouro naquele ano. Tecnicamente o filme é bastante competente e nos apresenta um dos melhores filmes daquele ano.

terça-feira, 21 de julho de 2020

UMA VIDA OCULTA

Título Original: A Hidden Life
Diretor: Terrence Malick
Ano: 2019
País de Origem: EUA
Duração: 174min
Nota: 9

Sinopse: Santa Radegunda, Áustria, 1939. Franz e Fani levam uma vida feliz em uma casa no campo, até serem surpreendidos com a convocação dele para servir ao exército de Adolf Hitler, que acabara de invadir o país. Contrário aos ideais nazistas, Franz se recusa a atender ao chamado. Com o tempo, ele e sua esposa passam a sofrer preconceito dentro da própria comunidade em que vivem.

Comentário: Malick é um dos meus diretores favoritos de todos os tempos, aqui ele não nos decepciona com mais um filme com suas características mais marcantes. Poético e reflexivo. Eu não consigo pensar em ninguém que apoie a decisão do personagem, que para mim não fez aquilo que acreditava baseado no que era certo ou errado, mas sim baseado em sua religião. Temos exemplos durante toda a guerra do lado alemão de pessoas que não acreditavam nos ideais de Hitler, mas fizeram o necessário para proteger suas famílias e ainda de quebra tentar mostrar de maneira firme suas posições contrárias, como é o caso de August Landmesser e do famoso escritor Ernst Jünger. Acredito que o filme sirva também para criticar a religião e o caminho de fé cega que as pessoas trilham nela. Tirando o fato de querermos bater no personagem com as cagadas de atitude que toma, o filme é maravilhoso e nos coloca em várias discussões de valores morais em praticamente toda as quase três horas de sua duração. A trilha sonora é fantástica e fico imaginando o trabalhão que deve dar editar um filme desse, que merecia fácil qualquer prêmio de edição e fotografia em que concorresse. Coração aperta com a última atuação de Bruno Ganz, que faz uma pequena participação. O que realmente me irritou no filme é ver um filme que se passa na Áustria, com todo o elenco alemão ou austríaco falando em inglês e em algumas partes em alemão, acho que o Malick pecou pela primeira vez em um filme ao americanizar o que não precisava.

domingo, 19 de julho de 2020

O ÚLTIMO POEMA DO RINOCERONTE

Título Original: Fasle Kargadan
Diretor: Bahman Ghobadi
Ano: 2012
País de Origem: Irã
Duração: 88min
Nota: 8

Sinopse: O poeta curdo-iraniano Sahel acaba de receber uma sentença de 30 anos de prisão no Irã. Agora a única coisa que vai mantê-lo com vontade de continuar vivendo é o pensamento de reencontrar sua esposa que pensa que ele está morto há mais de 20 anos.

Comentário: Apesar do filme ser feito no Iraque e Turquia, classifico-o como um filme iraniano, já que sua não realização no país foi devido as perseguições políticas de seus realizadores. Fazia seis anos que estava com este filme aqui para ver e chega a ser uma coincidência que tenha assistido depois de ver Incêndios, que tem vários pontos similares a trama, mas preferi este. O filme de Ghobadi é mais poético, não tem medo de mostrar sua crítica aos reais motivos à revolução iraniana de 1979 e também é mais pé no chão ao contar o que se propõe. O filme tem lá seus tropeços, mas consegue um bom resultado e possui uma fotografia belíssima. É interessante entendermos também a força do filme para a própria população iraniana ao ter Behrouz Vossoughi no papel principal, desde 1979 o ator nunca havia feito um filme iraniano, por recusa pelo exílio imposto, mas aceitou devido ao papel que diz muito sobre tudo isso, ele é muito querido pelo público no Irã. Também é fácil entender o porque a escolha de uma atriz não iraniana no papel que é de Monica Bellucci, já que poderia trazer graves consequências a uma atriz que não usaria o hijab e fizesse cenas de nudez e sexo. Vemos aqui também o homem com a pior lábia para conquistar uma mulher na história do cinema. As cenas com leitura de poesia me remeteram ao filme O Espelho de Tarkovski. Um filme que pode passar batido se a pessoa não tem muita afinidade com toda a merda que acontece no Irã nas últimas décadas.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

INCÊNDIOS

Título Original: Incendies
Diretor: Denis Villeneuve
Ano: 2010
País de Origem: Canadá
Duração: 130min
Nota: 6

Sinopse: Na leitura do testamento de sua mãe Nawal, os gêmeos Simon e Jeanne descobrem que eles tem um irmão e que o pai, que os dois achavam que havia falecido, estava vivo. Dentre muitos outros desconfortáveis pedidos, o seu final é de que eles achem tanto seu irmão quanto seu pai e lhe entreguem duas cartas que lhes são entregadas seladas. Nawal sempre foi um mistério para seus dois filhos, e a relação entre eles sempre foi muito difícil. Simon fica com raiva e resiste, mas Jeanne se sente no dever de respeitar o desejo de sua mãe.

Comentário: Todo mundo falava deste filme, fui assistir agora e apesar de ser um bom filme o achei superestimado. Existem vários pontos que me incomodaram, o fato de não revelar onde a ação se passa é quase como colocar todo o Oriente Médio ou país muçulmano no mesmo barco, uma visão muito limitada que o pessoal tem do ocidente. A violência, em muitos momentos, gratuita parece tentar chocar o telespectador, sem tratar dos assuntos de maneira mais esclarecida, pois já que o lugar é meio que fictício, tudo o que está acontecendo no país é tratado de maneira rasa, inclusive para não identificar o lugar. Chega a ser ridículo imaginar que uma mulher fique em uma prisão daquela por quinze anos e é estuprada apenas uma vez (infelizmente a realidade é outra). Mas o pior de tudo foi o plot twist alá Shyamalan do final, completamente desnecessário, eu não entendo essa mania de querer fazer algo mirabolante no final, o filme estava indo muito bem sem nada daquilo. A direção do Villeneuve é ótima, acho que é um diretor que se destaca mais pela parte técnica do que pelos seus filmes: A Chegada é um filme legal, mas acho que por ter lido o conto em que se baseia antes, o filme ficou muito aquém. Blade Runner 2049 é uma porcaria, mas no quesito direção, todos eles tem uma qualidade técnica indiscutível. De resto o filme é bom, a trama que vai se construindo com pedaços do passado se sobrepondo a busca de Jeanne pela verdade é muito bem construída. Se o filme fugisse do padrãozinho hollywoodiano e tentasse algo mais profundo, seria um filme muito melhor. Lógico que para a galera acostumada com filme americano, quando bate de cara com este, parece um filme incrível, dá para entender todo o hype entorno dele.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

ELENA

Título Original: Elena
Diretor: Andrey Zvyagintsev
Ano: 2011
País de Origem: Rússia
Duração: 109min
Nota: 7

Sinopse: Quando uma doença súbita e uma reunião inesperada ameaçam a possível herança da dona de casa obediente, Elena, ela deve traçar um plano desesperado ...

Comentário: Filme vencedor do Prêmio Especial do Juri da premiação Um Certo Olhar. O prêmio é merecido já que o filme é tecnicamente perfeito, e bota perfeição nisso. Zvyagintsev mostra aqui toda a competência como diretor, desde a iluminação, fotografia, trilha sonora, atuações, enfim... tudo é perfeito, mas ao mesmo tempo ele nos entrega um filme hermético, frio demais, sem muito sentimento. Acredito que tudo foi milimetricamente pensado, já que a história combina com esse "jeito" de fazer o filme, mas por outro lado tem a experiência do telespectador que poderia ser um pouco melhor. Eu não me senti em nenhum momento ligado emocionalmente aos personagens ou ao filme de maneira geral, fui um mero observador, e isto foi estranho.

terça-feira, 7 de julho de 2020

BIUTIFUL

Título Original: Biutiful
Diretor: Alejandro González Iñárritu
Ano: 2010
País de Origem: Espanha
Duração: 148min
Nota: 7

Sinopse: Esta é a história de um homem que vive uma queda livre emocional. Em sua viagem em busca de redenção, a escuridão ilumina o seu caminho. Conectado ao outro mundo, Uxbal é um trágico herói e pai de dois filhos que, ao sentir o perigo iminente da morte, batalha contra uma dura realidade e um destino que o impede de perdoar, perdoar-se, por amor e para sempre.

Comentário: Filme que deu o prêmio de melhor ator em Cannes para Javier Bardem, merecido, já que é ele que segura o filme aqui. Não foi um filme que me agradou muito, a narrativa é muito caótica e se estende demais sem focar em muita coisa. O filme é profundo sem se aprofundar em nenhum dos assuntos que nos apresenta, o que não é ruim necessariamente, foi o estilo que o diretor escolheu seguir, mas ao meu ver tornou o filme um pouco longo demais e arrastado. Teve horas que tive que parar para brincar com meu cachorro para tirar o peso que o filme carrega. Um filme que tem seus momentos, mas prefiro outros do diretor. O filme concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo México, mas é um filme todo feito na Espanha com atores espanhóis, classifico o filme mais como espanhol do que como mexicano. A trilha sonora é um espetáculo a parte.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O CORPO

Título Original: El Cuerpo
Diretor: Oriol Paulo
Ano: 2012
País de Origem: Espanha
Duração: 111min
Nota: 10

Sinopse: O corpo de uma mulher desaparece misteriosamente do necrotério sem deixar qualquer vestígio. O Inspetor Jaime Peña investiga o estranho acontecimento com a ajuda de Alex Ulloa, o viúvo da mulher desaparecida.

Comentário: O diretor já havia me conquistado com o excelente Um Contratempo, mas este filme anterior é ainda melhor. Com uma trama bem amarrada e um ritmo frenético, que virou uma espécie de marca registrada do diretor, O Corpo merece ser visto e revisto com toda a atenção nos detalhes. Um filme de mistério que nos deixa ligado nos 220V do começo ao fim. Quando o filme termina você percebe quase que uma genialidade em tudo que o diretor (que também é o escritor) fez até ali. Não fica devendo em nada para nenhum filme policial americano, na verdade é até muito melhor que a maioria, já que não sou muito fã de filme americano. Há um remake indiano deste filme no Netflix com o nome Um Corpo Desaparecido, não vi, mas sempre priorizo assistir a obra original. Não comentar mais nada para não dar spoiler, vai correndo assistir isso aqui!

sábado, 4 de julho de 2020

O CAVALO DE TURIM

Título Original: A Torinói Ló
Diretores: Béla Tarr & Ágnes Hranitzky
Ano: 2011
País de Origem: Hungria
Duração: 155min
Nota: 9

Sinopse: Uma voz conta, sem imagens, que em Turim, no dia 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Via Carlo Alberto para caminhar ou para buscar suas correspondências nos Correios. “Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cocheiro estava tendo problemas com o seu teimoso cavalo”, conta o narrador. Apesar de todos os esforços do cocheiro, o animal se recusava a mover-se. O dono do cavalo perdeu a paciência e começou a chicoteá-lo. Nietzsche teria surgido no meio da “multidão” e interrompe a sessão de tortura ao colocar os braços ao redor do pescoço do cavalo, para a ira do cocheiro. Levado por um vizinho para casa, ele teria ficado dois dias silencioso no sofá, até que teria dito: “Mãe, eu sou um tolo”. Segundo o narrador, Nietzsche teria vivido mais 10 anos, calmo e louco, aos cuidados da mãe e das irmãs. Mas sobre o cavalo, não se soube mais nada. A partir daí, mergulhamos na história de um cavalo castigado, seu dono e filha. Uma história silenciosa e louca, que reflete o “fim do mundo” ou, pelo menos, da “Humanidade”.

Comentário: Filme vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim. O que dizer desse filme? Eu não indicaria para ninguém, pois ele não é um filme fácil que agradaria qualquer pessoa. O filme é tecnicamente perfeito, a fotografia, atuações, direção de arte, iluminação... enfim, tudo é perfeito. O filme é longo e aparenta não acontecer nada, como o próprio diretor já disse: "É uma anti-história". Mas é impressionante como ele nos diz tanto, em cada detalhe há a futilidade de nossa existência. O diálogo da obra com Nietzsche é enorme. Não há muito o que dizer, mas ao mesmo tempo há tanto. Uma resenha difícil de fazer já que acredito que os significados e percepções da película são exclusivas de cada um que a assista. Para mim há uma certa referência a diretores como Ingmar Bergman (Principalmente ao filme O Sétimo Selo) e Victor Sjöström. Para mim valeu demais a experiência, não sei para você.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

A AUSÊNCIA DE DAMASCOS

Título Original: The Absence of Apricots
Diretor: Daniel Asadi Faezi
Ano: 2018
País de Origem: Paquistão
Duração: 48min
Nota: 6

Sinopse: Uma aldeia nas montanhas do norte do Paquistão. Certo dia, um deslizamento de terra bloqueou o rio. Milhares de casas e campos foram inundados. Aldeias desapareceram. O que resta são as pessoas e suas histórias, transmitidas de uma geração para outra. E os fantasmas, que ainda estão vagando pela região.

Comentário: O diretor alemão, descendente de iranianos, faz aqui um filme parte documentário e parte experimental no Paquistão. O filme vale mais pelas imagens lindas do que pela sua narrativa em si. Ele filma o dia a dia de pessoas que moram em um lugar remoto que foi destruído por uma enchente e amarra tudo isso narrando tudo com uma lenda antiga local. O lugar é lindo, é até difícil conceber uma paisagem assim dentro da nossa realidade, mas ao mesmo tempo a realidade da vida das pessoas que vivem lá não é tão bonito como o cenário. Essa dicotomia é interessante, mas não há muito mais do que isso no filme. Acho que ele se perde ao não se posicionar como documentário, nem como uma narração da lenda que se propõe a contar.