sábado, 27 de abril de 2024

ASSIM QUE ABRO MEUS OLHOS

Título Original: À Peine J'Ouvre Les Yeux
Diretora: Leyla Bouzid
Ano: 2015
País de Origem: Tunísia
Duração: 102min
Nota: 9

Sinopse: Poucos meses antes da revolução na Tunísia, Farah, de 18 anos, é apaixonada pela vida e canta em uma banda de rock político. Sua mãe, conhecendo os perigos da Tunísia, quer que ela siga a carreira de médica.

 
Comentário: Vencedor de um prêmio fora das competições principais no Festival de Veneza. O filme me surpreendeu muito positivamente, achei lindo demais em tudo. Baya Medhaffar é uma baita atriz, tanto cantando quanto interpretando. Filme com uma das melhores trilhas sonoras que já ouvi na vida, pena que a banda fictícia não gravou mais músicas para o soundtrack do filme. Tem pais que realmente não deveriam ter filhos porque não tem a mínima ideia do que estão fazendo, as atitudes da mãe me irritaram demais mesmo a personagem crescendo muito durante o passar da película. Em pensar que a Revolução de Jasmim alterou completamente a vida naquele país no ano seguinte e conseguiu manter depois, com o partido de esquerda, a garantia de estado laico em um país predominantemente muçulmano, que vem garantindo cada vez mais direitos para as mulheres. Tunísia é um exemplo para todo o mundo árabe. Amei!

domingo, 21 de abril de 2024

CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS

Título Original: Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos
Diretores: Renée Nader Messora & João Salaviza
Ano: 2018
País de Origem: Brasil
Duração: 114min
Nota: 8

Sinopse: Rodado ao longo de nove meses na aldeia Pedra Branca (Terra Indígena Krahô, no Tocantins), sem equipe técnica e em negativo 16mm, o filme acompanha Ihjãc, um jovem Krahô que, após um encontro com o espírito do seu falecido pai, se vê obrigado a realizar sua festa de fim de luto.

 
Comentário: Vencedor do Prêmio do Júri na premiação Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Só pela ideia de se fazer um filme nas condições que foram feitas em uma aldeia indígena já vale a experiência de ser assistido. Interessante ver como o elenco, que não são atores e sim indígenas representando papéis, convencem muito bem dentro da narrativa que está sendo contada. Mas o mais impressionante de tudo são as cenas de interação com a natureza, você fica pensando como o diretor conseguiu filmar isso ou aquilo, como é que aquela arara voou criando aquela cena incrível justo naquele momento? O filme é de encher os olhos, acho que poderia ter alguns artifícios para prender mais a narrativa ao telespectador, não achei um filme fácil de ser assistido em alguns momentos, dispersa de alguma maneira em alguns momentos, mas em linhas gerais é uma grande obra do cinema brasileiro.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

FOLHAS DE OUTONO

Título Original: Kuolleet Lehdet
Diretor: Aki Kaurismäki
Ano: 2023
País de Origem: Finlândia
Duração: 81min
Nota: 8

Sinopse: Em Helsinque, Ansa e Holappa, duas almas solitárias em busca do primeiro amor, conhecem-se por acaso em um bar de karaokê. Porém, o caminho dos dois para a felicidade é cercado por vários obstáculos: de números de telefone perdidos a endereços errados, alcoolismo e uma charmosa cachorrinha de rua.

 
Comentário: Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes. "Festa estranha com gente esquisita, eu não tô legal, não aguento mais birita" como já cantavam o Legião Urbana... e bota gente estranha nisso. Não sou familiarizado com o cinema do Kaurismäki, este é o primeiro que assisto apesar de ter outros 10 na minha coleção. Apesar de estranho e de ter uma história para lá de clichê, o filme agrada, conquista a gente pela excentricidade dos personagens. Os cenários são lindos, tem todo um toque nostálgico misturado com o mundo moderno atual. Irritou um pouco o lance de ficar batendo na tecla sobre a Guerra da Ucrânia (mas é a Europa e a visão eurocentrista prevalece por aqui sempre), mas serviu para mostrar como ela afetou o fornecimento de energia para os países que embarcaram na conversa fiada estadunidense. No geral o filme é uma graça com um toque agridoce.

domingo, 14 de abril de 2024

FACE A FACE

Título Original: Ansikte Mot Ansikte
Diretor: Ingmar Bergman
Ano: 1976
País de Origem: Suécia
Duração: 130min
Nota: 7

Sinopse: A Dra. Jenny Isaksson é uma psiquiatra casada com outro psiquiatra; ambos são bem-sucedidos em seus empregos, mas lenta e agonizantemente, ela sucumbe a um colapso. Jenny é assombrada por imagens e emoções de seu passado e eventualmente não consegue funcionar, seja como esposa, médica ou indivíduo.

 
Comentário: Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e indicado ao Oscar de Direção e Melhor Atriz. O filme não funcionou muito bem comigo, achei todo o plot central do filme muito forçado e com cenas que não levaram a lugar nenhum. O que vale do filme é a atuação da Liv Ullmann e detalhes pontuais, Bergman flertando com o terror é incrível e Gunnar Björnstrand é um espetáculo de versatilidade. O desfecho chega a ser meio frustrante. As cenas funcionam melhor isoladas do filme, mexem com sentimentos e percepções, mas no geral não achei que a narrativa como um todo nos presenteie com o Bergman em sua melhor forma.

sábado, 13 de abril de 2024

DIAS PERFEITOS

Título Original: Perfect Days
Diretor: Wim Wenders
Ano: 2023
País de Origem: Japão
Duração: 124min
Nota: 8

Sinopse: Hirayama está feliz em sua vida simples como limpador de banheiros em Tóquio. Tirando sua rotina diária muito estruturada, ele cultiva sua paixão pela música, livros e fotografias de árvores. Uma série de encontros inesperados revela gradualmente mais do seu passado.

 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes. Talvez seja um exagero dizer que seja tão bom quanto os trabalhos épicos do diretor, mas é inegável que Wenders volta aqui a ter uma relevância muito interessante para o cinema. É um filme mais sensorial do que narrativo, mas a cena final é sublime demais e me remeteu As Noites de Cabíria de Fellini. Interessante notar também como há vários pontos em que Wenders revisita sua própria obra, desde a musicalidade (The Kinks, Van Morrison ou Lou Reed), passando por uma espécie de road movie por Tóquio para chegar até a complexidade do personagem que permanece submerso como um iceberg em sua totalidade. Koji Yakusho dá um show de talento e carisma. No começo do filme cheguei até a pensar que o personagem era um anjo que abdicou de sua vida angelical como em Asas do Desejo.

terça-feira, 9 de abril de 2024

CÉSAR DEVE MORRER

Título Original: Cesare Deve Morire
Diretores: Paolo Taviani & Vittorio Taviani
Ano: 2012
País de Origem: Itália
Duração: 73min
Nota: 8

Sinopse: O filme, que mistura teatro, documentário e drama, encena uma versão livre da peça "Julius Caesar", de Shakespeare, onde os atores são detentos da ala de segurança máxima da prisão de Rebibbia, na Itália.

 
Comentário: Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim. O filme é muito bom e só fortaleceu minha convicção contra a prisão perpétua que mantenho desde que assisti O Homem de Alcatraz. Pessoas mudam, evoluem e a frase final deste filme simplesmente me tirou lágrimas. Só achei que o diretor abrir mão de entrar de cabeça na ideia de um documentário empobrece o filme, você fica querendo saber mais sobre os detentos, coisa que poderia ser facilmente proporcionada com pequenas entrevistas ou depoimentos entre cenas da película. O interessante do filme é ver como a arte mudou a vida dos detentos, então nada mais justo que o filme desse mais voz para que eles nos contassem um pouco disso mais diretamente. Gostei bastante, recomendadíssimo! Como é lindo ver Paulo Freire tão vivo na arte, pois acredito que só a educação libertará o ser humano.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

PRIMEIRO CASO, SEGUNDO CASO

Título Original: Ghazieh-e Shekl-e Aval, Ghazieh-e Shekl-e Dou Wom
Diretor: Abbas Kiarostami
Ano: 1979
País de Origem: Irã
Duração: 47min
Nota: 9

Sinopse: O primeiro filme do Abbas Kiarostami após a Revolução Islâmica. Na sala de um colégio, enquanto um professor escreve na lousa, um aluno faz barulho de propósito às suas costas. Não sabendo quem era o culpado, o professor resolve expulsar os setes alunos da ultima fila: o culpado é um deles, que não foi denunciado pelos seus colegas. Kirostami projeta essa cena para alguns adultos e pergunta o que acham da situação.

 
Comentário: Simplesmente brilhante, Kiarostami faz uma obra que explica o Irã ontem e hoje e que serve para questionar se os valores do que se tornou o Irã tantos anos depois ainda representa os mesmos valores da Revolução Islâmica no país. Muito interessante o posicionamento e a linha de pensamento de algumas figuras chaves do país naquele momento e o que representavam. Qual seria a diferença do aluno delator para uma polícia da moralidade de hoje? Kiarostami mostra um olhar tão atento e apurado para o momento histórico do que acontecia que chego até a dizer que nenhum outro diretor conseguiu este feito. É possível notar o laço da revolução com a esquerda ainda em alta, e que depois veio a ser criminalizada. Uma obra de arte obrigatória da carreira deste diretor que foi um dos maiores.

sexta-feira, 29 de março de 2024

SIDERAL

Título Original: Sideral
Diretor: Carlos Segundo
Ano: 2021
País de Origem: Brasil
Duração: 15min
Nota: 7

Sinopse: Em Natal, no litoral brasileiro, o país se prepara para lançar seu primeiro foguete espacial tripulado ao espaço. Um casal mora com filhos perto do centro espacial, ela é faxineira e ele mecânico, mas ela sonha com outros horizontes.
 
Comentário: Indicado para Melhor Curta Metragem tanto no Festival de Cannes quanto no Festival de Berlim, onde neste último ganhou Menção Especial. Acho sempre difícil dar uma nota para um curta, porque na maioria dos casos acabam sendo histórias que podiam ser muito mais bem desenvolvidas em um filme, este é o caso deste curta, adorei toda a premissa, mas você acaba não se aprofundando nos personagens que são riquíssimos em várias camadas. O elenco trabalha tão bem que merecia muito mais tempo em tela. Fiquei pensando na grana que dava para ganhar com um processo ou em como as condições sociais evidentes escancaram as divisões de classes quando o sujeito diz "mas ela vai continuar fazendo a limpeza lá". Um curta que tinha muito mais a dizer se tivesse o tempo necessário.

quinta-feira, 28 de março de 2024

A TERRA E A SOMBRA

Título Original: La Tierra y la Sombra
Diretor: César Augusto Acevedo
Ano: 2015
País de Origem: Colômbia
Duração: 97min
Nota: 10

Sinopse: Um humilde trabalhador canavieiro retorna para casa para encontrar seu neto e lidar com as dificuldades em que sua família está passando.
 
Comentário: Vencedor do Câmera de Ouro e mais outros três prêmios no Festival de Cannes. Que filmaço! Nível de perfeição que fica até difícil falar, direção excelente e um elenco fantástico que pelo que fui pesquisar não achei nenhuma informação sobre eles, fico pensando se não são pessoas comuns do campo. O garotinho José Felipe Cárdenas dá um show de interpretação e Haimer Leal que interpreta o avô é de uma simpatia ímpar. Uma realidade que é tão similar ao Brasil, impossível não se emocionar. Há tantas cenas brilhantes, de detalhes tão importantes, aquele final deslumbrante. Um filme para favoritar, quem reclama de que ele é lento não merece o que está assistindo, vá ver as bobagens de Hollywood. Estou viciado em ouvir o Dueto Remembranzas.

quarta-feira, 27 de março de 2024

POBRES CRIATURAS

Título Original: Poor Things
Diretor: Yorgos Lanthimos
Ano: 2023
País de Origem: EUA
Duração: 141min
Nota: 8

Sinopse: A história de amor e escândalo de Bella Baxter, uma bela mulher que é trazida de volta dos mortos por um excêntrico cientista na era vitoriana.
 
Comentário: Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza. Para mim é um "O que aconteceria se Roger Corman ou William Castle ainda dirigissem filmes em 2023 com um alto orçamento". O roteiro é típico de horror fantástico dos anos 60, tu pode até colocar o Vincent Price no lugar do Willem Dafoe. O filme entretêm mais do que eu esperava, dei boa risadas. O que chama realmente a atenção são os figurinos, cenários e a estética que remete ao horror clássico de Mary Shelley. A interpretação de Emma Stone também merece ser comentada, foi uma bela entrega ao papel. O filme funciona muito bem, estava com medo de ser tenso como em outros do Lanthimos, mas terminei a sessão bem leve. Podia ser mais curto, perde muito tempo com algumas redundâncias.