domingo, 24 de dezembro de 2023

ANDARILHOS DO DESERTO

Título Original: Al Haimoune
Diretor: Nacer Khemir
Ano: 1984
País de Origem: Tunísia
Duração: 96min
Nota: 9

Sinopse: Um professor é designado para uma vila remota no deserto, obcecada por um misterioso tesouro enterrado e cujos filhos são amaldiçoados a vagar pelo deserto.
 
Comentário: Que filme! Parecia que eu estava lendo algo do Italo Calvino. Tudo no filme que não funciona é fruto de nossa ignorância e desconhecimento total da cultura árabe. É um filme de referências, cheio de lendas e fáculas daquele povo que para nós parece tão distante. O filme tem uma fotografia ímpar e constrói dentro de si mesmo outras fábulas que conversam com o mundo contemporâneo e que servem tanto como críticas como análises. Os andarilhos do deserto do filme são tão diferentes dos filhos que precisam migrar para outras terras para conseguir sustento nos dias de hoje? Acho que não. Depois de ver este filme ler As Mil e uma Noites subiu para o topo das minhas prioridades.

sábado, 23 de dezembro de 2023

A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE

Título Original: La double vie de Véronique
Diretor: Krzysztof Kieślowski
Ano: 1991
País de Origem: França
Duração: 97min
Nota: 10

Sinopse: Duas histórias paralelas sobre duas mulheres idênticas; uma morando na Polônia e outra na França. Elas não se conhecem, mas suas vidas estão profundamente conectadas.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro e vencedor dos prêmios de Melhor Atriz e do Prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema no Festival de Cannes. Para mim é um pecado muito grande terem dado a Palma de Ouro para o Barton Fink, este filme é muito superior e parece ter envelhecido como vinho. É um filme sensorial, muito mais do que narrativo, apesar da narrativa estar ali presente, como coadjuvante. É tudo tão real e ao mesmo tempo tão fantástico que é difícil descrever. Apesar da referência para o Amélie Poulain ser real, também não acho tanto assim. Acho que não deve agradar uma geração Netflix acostumada a filmes mastigados enfiados em catálogos pré-fabricados diretos em seus cérebros. Tudo no filme funcionou para mim, da fotografia à música, do elenco (Irène Jacob é uma das mulheres mais maravilhosas do mundo) ao roteiro e, principalmente, o sentimento doce e amargo que fica.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

ARCA RUSSA

Título Original: Russkiy Kovcheg
Diretor: Aleksandr Sokurov
Ano: 2002
País de Origem: Rússia
Duração: 99min
Nota: 8

Sinopse: Um aristocrata francês do século XIX, conhecido por suas memórias contundentes da vida na Rússia, viaja pelo Museu Hermitage de São Petersburgo e encontra figuras históricas dos últimos 200 anos.
 
Comentário: Indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme impressiona em vários aspectos, e por mais que deixe a gente boiando por não conhecer tão bem as personalidades históricas russas, é preciso tirar o chapéu para toda a ideia do filme. Fiquei imaginando um filme assim com personagens da literatura russa, que sou fã, o deleite que não seria. O fato de ser todo filmado em plano sequência é um dos pontos que fazem o filme crescer bastante, há momentos que funcionam melhores que outros, mas a grandiosidade do filme ofusca qualquer defeito. Com certeza é um filme que vai melhor muito em uma segunda assistida depois de um estudo histórico sobre o período em que se passa. O Hermitage é um personagem a mais e vai ganhando espaço conforme o filme vai se desenrolando. É uma experiência bem diferente, acho que vale a pena nem se for só para contemplar, esquecer a parte narrativa.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

BELFAST

Título Original: Belfast
Diretor: Kenneth Branagh
Ano: 2021
País de Origem: Irlanda do Norte
Duração: 98min
Nota: 4

Sinopse: Escrito e dirigido por Kenneth Branagh, este filme semiautobiográfico traça a infância de um menino durante o tumultuado final dos anos 1960, na capital da Irlanda do Norte.
 
Comentário: Eu fico imaginando se daqui há alguns anos a gente vai ver um filme sobre uma família de judeus vivendo em Israel que discutem se devem partir pela violência que anda o país com seu povo atacando os palestinos. Pois é exatamente este o plot deste filme, sem aprofundamento nenhum sobre as razões que levaram aos conflitos que já existiam antes e que só foram parar em 1998, naquilo que os irlandeses chamam de "A Guerra que a Inglaterra Não Ganhou". A família central do filme são de família inglesa, que apoiam a ocupação do trono inglês em território irlandês, que tem trabalho e proposta boa para partir para a Inglaterra, enquanto os católicos nativos da ilha são os colonizados. Estamos vendo de novo esta história, tinha até o I.R.A. que era taxado de grupo terrorista pela mídia ocidental. O filme é cheio de vazios, um protagonista bonitinho com uma história para lá de clichê. A frase de efeito no final chega a ser um tapa na cara dos "irlandeses que ficaram", como se eles tivessem para onde ir ou como se tivessem escolha com o que a Inglaterra fez com eles. Achei o filme de um mal gosto tremendo. Não é ruim de assistir, passa até que gostoso o tempo, mas quando analisamos friamente é um filme bem ruinzinho.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

FÅRÖ 1969

Título Original: Fårö Dokument
Diretor: Ingmar Bergman
Ano: 1970
País de Origem: Suécia
Duração: 58min
Nota: 7

Sinopse: Primeiro documentário de Ingmar Bergman, realizado em 1969 após construir sua casa na Ilha de Farö, no Mar Báltico. Produzido para a TV sueca, investiga o cotidiano dos moradores da ilha e as razões políticas e sociais de seu despovoamento.
 
Comentário: O documentário é bom, é interessante como Bergman consegue nos apresentar a vida local amaranhada com a história do local. Hoje, Fårö, tem ainda menos habitantes do que na época, e acho que é compreensível, porque eu realmente não entendo a pessoa querer morar em um local com um clima tão ruim. Moro na Inglaterra e não vejo a hora de nunca mais ter que encarar as condições climáticas daqui, Fårö parece ser ainda pior. A gente fica curioso sobre o destino de personagens apresentados, o diretor fez outro documentário sobre o local 10 anos depois e irei conferir com certeza. Morei na Alemanha em uma fazenda aonde tinha abate de animais, virei vegetariano desde então, confesso que as cenas apresentadas aqui me incomodaram. Tem que ter estômago.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

DAS PROFUNDEZAS

Título Original: Il Buco
Diretor: Michelangelo Frammartino
Ano: 2021
País de Origem: Itália
Duração: 93min
Nota: 8

Sinopse: Em agosto de 1961, um grupo de espeleólogos se dirigiu ao sul da Itália para explorar cavernas desconhecidas pelo homem e descobre a segunda mais profunda do mundo.
 
Comentário: Vencedor do Prêmio Especial do Juri no Festival de Veneza. É um filme contemplativo, não há um fio narrativo, então acho que tem que estar no clima. Confesso que teve momentos que senti que não funcionou comigo, mas quando terminou fiquei pensando em várias maneiras diferentes de se ver o filme e fui gostando mais e mais dele. Acho que não estava preparado para o que ia ver e me deixou meio dividido, porém devo assistir de novo no futuro e acredito que vai funcionar mais, já que depois de ter assistido parece que o filme foi crescendo dentro de mim, criando reflexões que foram surgindo como a cada novo nível da caverna do filme. É bem interessante, valeu a assistida, mas é daqueles que não recomendo para qualquer um, é daqueles que é preciso um nível de entrega que pouquíssimas pessoas tem, por estarem acostumadas com um cinema mais feijão com arroz.

domingo, 10 de dezembro de 2023

GAZA MON AMOUR

Título Original: Gaza Mon Amour
Diretores: Arab Nasser & Tarzan Nasser
Ano: 2020
País de Origem: Palestina
Duração: 87min
Nota: 8

Sinopse: Após encontrar uma antiga estátua de Apolo em suas redes, um pescador de 60 anos começa a se sentir mais confiante para se aproximar de Siham, uma mulher que trabalha com sua filha no mercado por quem nutre um amor secreto.
 
Comentário: Indicado em uma das premiações paralelas no Festival de Veneza. Um filme gostoso de assistir, mas sem deixar de lado as críticas sociais que a Palestina vive hoje por conta do cerco imposto pelo estado terrorista de Israel. Mesmo com toda a aura de apartheid que vivem, a vida segue e é isto o que o filme tenta mostrar. Há situações cômicas envolvendo a estátua de Apolo, assim como há o romance tímido entre os protagonistas, os personagens vão se desenvolvendo de maneira muito simples, mas eficiente durante o filme. Acho que no geral entrega o que propõe, não é um filme que tenta ser grandioso, mas sim entreter sem ser vazio. Há cenas tão pequenas, que parecem sem importância, mas que carregam muito significado. Vale a conferida.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

QUO VADIS, AIDA?

Título Original: Quo Vadis, Aida?
Diretor: Jasmila Zbanic
Ano: 2020
País de Origem: Bósnia e Herzegovina
Duração: 104min
Nota: 10

Sinopse: Aida é tradutora da ONU na pequena cidade de Srebrenica durante a guerra que assolou os Balcãs na década de 90. Quando o exército dos sérvios invadem a cidade, sua família está entre os milhares de cidadãos que buscam refúgio.
 
Comentário: Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, na minha opinião merecia o prêmio, mas o assunto é algo que o mundo europeu cristão quer fingir que não ocorreu. Sou um grande crítico da ONU e neste filme é possível ter um gostinho a respeito deste assunto, apesar do filme não explicar o porque nada foi feito contra os sérvios, que eram a esperança americana contra a Iugoslávia, último reduto socialista na Europa depois da queda da União Soviética. Não vou me estender de como a ONU vem desde sua criação seguindo uma agenda dos EUA e seus aliados. O filme é construído de uma maneira muito foda, o desenrolar é espetacular e o elenco é só a cereja no bolo. O filme te deixa mal, te deixa pensando por semanas, meses e quem sabe até anos. Uma história que é só um pequeno detalhe do horror que foi o massacre de assolou os Balcãs na década de 90. Um filme necessário, que o mundo ocidental tenta varrer para baixo do tapete (vide o prêmio Nobel de literatura dado em 2019 para o Peter Handke que finge que exatamente o genocídio mostrado neste filme nunca aconteceu). Srebrenica não deve ser esquecida, é só mais um genocídio na conta da sociedade ocidental eurocentrista cristã do bem.

sábado, 2 de dezembro de 2023

O RELATÓRIO

Título Original: Gozaresh
Diretor: Abbas Kiarostami
Ano: 1977
País de Origem: Irã
Duração: 109min
Nota: 6

Sinopse: A vida de um cobrador de impostos que é acusado de aceitar subornos, e também tem de lidar com outros problemas em casa.
 
Comentário: Um filme menor e diria até que meio fora da curva do diretor, onde o personagem principal só me deixou com asco. O cara simplesmente não vale nada e é só um desses babacas que orbitam o mundo masculino de uma forma geral até hoje. O filme não tem uma narrativa que te prenda, mas é feito de momentos e tem alguns diálogos excelentes que valem a pena, que é onde você o percebe como uma obra do Kiarostami. Fiquei com dó da criança que é largada no carro no frio, leva uma mala na cara e é deixada de lado toda hora. Fiquei apreensivo. Shohreh Aghdashloo novinha de tudo, linda demais e é quem carrega o filme de certa maneira.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

AS OITO MONTANHAS

Título Original: Le Otto Montagne
Diretores: Felix van Groeningen & Charlotte Vandermeersch
Ano: 2022
País de Origem: Itália
Duração: 147min
Nota: 9

Sinopse: Uma jornada épica de amizade e autodescoberta nos incríveis Alpes italianos, As Oito Montanhas segue ao longo de quatro décadas o profundo e complexo relacionamento entre Pietro e Bruno.
 
Comentário: Vencedor do Prêmio do Juri no Festival de Cannes. O filme é bem gostoso de assistir, o tempo vai passando e você se envolve com a história. O diretor podia deixar um pouco mais claro os períodos temporais, a cena em que o pai escuta uma partida de futebol do Juventus no carro eu identifiquei que se passa entre 2004 à 2006 porque o Cannavaro estava no time. Então provavelmente até o final do filme vemos bastante os destroços de uma Itália pós-crise de 2008. Há cenas lindíssimas e o filme consegue segurar o emocional sem cair no pedantismo. Um filme que merece ser visto e que deve agradar um público amplo. Direção e elenco espetaculares. Mesmo muita coisa não seguindo como a gente gostaria durante todo o filme, acho que emula bem a vida, que nem sempre segue nossos planos.